Três situações chegam frequentemente ao consultório com uma pergunta em comum: “Isso é normal?” O filho que parece não estar atingindo as etapas esperadas para a idade. A criança que “desliga” por alguns segundos e volta como se nada tivesse acontecido. A criança que pisca os olhos repetidamente, ergue o ombro de forma brusca ou emite sons involuntários.
Cada um desses cenários tem um significado clínico diferente, e cada um merece ser reconhecido pelo nome certo. Este guia reúne as informações essenciais para identificar quando vale a pena buscar avaliação.
Reconhecer sinais de alerta no desenvolvimento infantil precocemente é o que permite intervenções antes que o impacto se torne maior.
Sinais de alerta no desenvolvimento infantil: o que observar
Sinais de alerta não são diagnósticos. São sinais que pedem investigação. Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Developmental Medicine & Child Neurology [1] mapeou 246 instrumentos validados para detecção precoce de atrasos e alterações do desenvolvimento em crianças de 0 a 5 anos, a partir de 86 revisões sistemáticas e 6 diretrizes clínicas internacionais. A conclusão central: a identificação precoce amplia significativamente a janela de intervenção.
Os sinais que justificam avaliação imediata com o pediatra:
Aos 12 meses: não responde ao próprio nome; não balbucia; não aponta para objetos; não faz contato visual intencional.
Aos 18 meses: ausência de pelo menos uma palavra com significado; não imita ações simples (bater palmas, dar tchau); não aponta para compartilhar interesse (“olha aquilo!”).
Aos 24 meses: não forma frases de 2 palavras espontâneas; vocabulário abaixo de 50 palavras; não demonstra interesse em outras crianças.
Em qualquer idade: perda de habilidades já adquiridas, de linguagem, de habilidades sociais, ou motoras. A regressão é sempre um sinal de alerta, independentemente da idade.
A presença de um sinal isolado não confirma diagnóstico de nenhuma condição. Mas nenhum sinal de alerta deve ser esperado “para ver se passa”. A avaliação precoce, no pior caso, confirma que está tudo bem.
Ausências epilépticas: quando “desligar” é uma crise
A epilepsia de ausência é uma das apresentações de epilepsia mais facilmente ignoradas. A criança interrompe brevemente o que está fazendo, fica com o olhar fixo e vago, não responde ao nome nem ao toque, e retorna ao normal em 5 a 30 segundos, sem memória do episódio.
A confusão com desatenção é clássica. Mas há diferenças importantes:
- No transtorno de atenção: a criança responde ao ser chamada com mais intensidade; geralmente tem consciência de que estava distraída
- Na ausência epiléptica: a criança não responde durante o episódio, mesmo quando chamada pelo nome ou tocada; não tem memória do que aconteceu
Um detalhe revelador: as ausências podem ocorrer dezenas de vezes por dia, inclusive durante atividades, sem que os pais ou professores percebam exatamente o que está acontecendo. O que notam é que a criança “some” brevemente, perde o fio da conversa, e parece “sonhar acordada” com frequência.
Um teste simples que os pais podem fazer: peça à criança que sopre em um papel ou num catavento por 3 minutos (hiperventilação). Em crianças com epilepsia de ausência da infância, esse procedimento frequentemente provoca um episódio. Se um episódio ocorrer durante o teste, é indicação direta de avaliação neurológica.
A epilepsia de ausência da infância é uma síndrome epiléptica bem definida, com padrão específico no EEG (descarga de espícula-onda generalizada a 3 Hz durante os episódios), reconhecida na classificação ILAE 2025 [2]. A boa notícia: é altamente tratável, a maioria das crianças alcança remissão com medicação antiepiléptica, sem impacto de longo prazo no desenvolvimento quando tratada adequadamente.
Tiques: involuntários, não pirraça
Tiques são movimentos ou vocalizações súbitos, repetitivos, não rítmicos, que a criança não controla voluntariamente, mesmo que possa suprimi-los brevemente. Os tiques motores mais comuns em crianças: piscar os olhos repetidamente, franzir o nariz, sacudir a cabeça, erguer os ombros. Os tiques vocais mais comuns: pigarrear, fungar, estalar a língua, grunhir.
São muito mais comuns do que se imagina: estimativas apontam prevalência de 4 a 20% em crianças em idade escolar. A maioria são tiques transitórios, duram menos de 12 meses e desaparecem espontaneamente.
Os tiques têm características que os distinguem de outros movimentos involuntários:
- Aumentam quando a criança está estressada, cansada ou muito empolgada
- Diminuem quando está concentrada em uma atividade prazerosa
- Pioram quando alguém chama atenção para eles ou pede para parar
A Síndrome de Tourette é definida pela presença de pelo menos 2 tiques motores e 1 tique vocal por mais de 12 meses. É uma condição neurológica, não um problema de criação.
O dado mais importante clinicamente: os tiques raramente são o principal problema. Uma revisão publicada em 2026 no Handbook of Clinical Neurology [3] mostrou que 90% dos pacientes com Síndrome de Tourette têm pelo menos uma comorbidade, mais frequentemente TOC e TDAH, mas também ansiedade, dificuldades de aprendizagem e distúrbios de sono. São as comorbidades que mais afetam a qualidade de vida, não os tiques em si.
O que não fazer: não peça à criança para “parar” com o tique, não chame atenção repetidamente para o comportamento. A supressão voluntária é temporária e tende a aumentar a intensidade posterior. A criança não está fazendo de propósito.
Quando buscar avaliação — resumo rápido
Sinais de alerta do desenvolvimento: qualquer marco ausente para a idade, especialmente aos 12, 18 e 24 meses, ou qualquer regressão em qualquer idade.
Suspeita de ausências epilépticas: episódios de “desligamento” breve que se repetem; episódio provocado durante a hiperventilação com papel; queixa de professores de que a criança “some” mentalmente com frequência.
Tiques: persistência além de 4 semanas; múltiplos tipos de tiques (motores e vocais); interferência significativa com escola ou interações sociais; presença de rituais repetitivos ou dificuldades intensas de atenção associadas.
Em todos esses casos, o pediatra é o primeiro passo, e é ele que vai orientar se há necessidade de investigação adicional ou encaminhamento para especialista.
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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Burgess A, Luke C, Jackman M, et al. Clinical utility and psychometric properties of tools for early detection of developmental concerns and disability in young children: A scoping review. Developmental Medicine & Child Neurology. 2024;67(3):286-306. doi: 10.1111/dmcn.16076.
[2] Beniczky S, Trinka E, Wirrell E, et al. A practical guide to the updated seizure classification 2025. Epileptic Disorders. 2025;27(6):1087-1104. doi: 10.1002/epd2.70110.
[3] Abi-Jaoude E, Gorman DA, Sandor P. Beneath the tip of the iceberg: treatment of neuropsychiatric comorbidities in tic disorders. Handbook of Clinical Neurology. 2026;215:311-326. doi: 10.1016/B978-0-443-13554-5.00008-0.
