Ver seu filho convulsionar é uma das experiências mais assustadoras que um pai pode viver. O corpo que treme sem controle, os olhos que reviram, a criança que não responde. Em segundos, o medo toma conta e a dúvida também: “É epilepsia? O que faço?”
Este artigo existe para responder a essas perguntas com calma e embasamento científico. Epilepsia é uma das condições neurológicas mais comuns da infância, tem tratamento eficaz na maioria dos casos, e famílias informadas conseguem agir com mais segurança quando uma crise acontece.
A epilepsia infantil é um dos diagnósticos que mais assustam e um dos que mais exigem informação precisa para uma resposta familiar adequada.
O que é epilepsia infantil
Epilepsia é uma condição cerebral caracterizada pela predisposição a crises epilépticas recorrentes, descargas elétricas anormais e transitórias no cérebro. O diagnóstico é estabelecido quando:
- A criança tem 2 ou mais crises não provocadas, com intervalo superior a 24 horas; ou
- Tem 1 crise não provocada com risco de recorrência superior a 60% nos próximos 10 anos; ou
- É diagnosticada com uma síndrome epiléptica reconhecida
Isso diferencia a epilepsia de uma crise febril isolada que ocorre com febre alta, especialmente antes dos 5 anos, e que não é epilepsia ou de outras causas de evento agudo.
É comum na infância?
Sim. Um estudo de base populacional publicado em 2025 na revista Epilepsia [1], periódico oficial da Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE), acompanhou mais de 111.000 crianças e encontrou que epilepsias focais respondem por 61% dos casos na infância e adolescência, enquanto as generalizadas correspondem a 24%. A maioria dos casos tem diagnóstico definido ou é enquadrada em uma síndrome epiléptica reconhecida.
A epilepsia afeta cerca de 1% a 2% da população geral e é ainda mais prevalente na infância, especialmente no primeiro ano de vida e na adolescência, faixas de maior incidência.
Os tipos de crise epiléptica
A classificação foi atualizada em 2025 pela ILAE. Um guia prático publicado em 2025 na Epileptic Disorders [2], com co-autores brasileiros das universidades UNICAMP e UNIFESP, detalha as principais categorias:
Crises focais
Começam em uma região específica de um hemisfério cerebral. Podem ou não comprometer a consciência. Exemplos:
- Crises focais conscientes: a criança percebe o que está acontecendo, pode sentir formigamento, ver luzes, ter sensação estranha no estômago, ou fazer movimentos repetitivos com a boca ou as mãos
- Crises focais com comprometimento da consciência: a criança fica “ausente” durante alguns segundos, pode fazer movimentos automáticos (esfregar as mãos, mascar sem comida, olhar fixo) e não lembra do episódio depois
- Crises focais que evoluem para bilateral: começam focais e se generalizam, com convulsão do corpo todo
Crises generalizadas
Envolvem os dois hemisférios cerebrais desde o início. Os tipos mais importantes na infância:
- Tônico-clônica generalizada (“convulsão”): a mais conhecida, rigidez do corpo (fase tônica) seguida de tremores rítmicos (fase clônica), perda de consciência, pode haver salivação e cianose labial. Dura geralmente 1 a 3 minutos
- Ausências: episódios muito breves (5 a 30 segundos) de “desligamento” súbito, a criança para o que está fazendo, olha fixo, não responde, e retoma como se nada tivesse acontecido. Clássica na Epilepsia de Ausência da Infância
- Tônicas: rigidez muscular súbita, sem fase clônica
- Atônicas (“crises de queda”): perda súbita do tônus muscular, a criança cai abruptamente, sem aviso
- Mioclônicas: sacudidas musculares rápidas, geralmente nos braços, frequentemente ao acordar
Espasmos epilépticos
Merecem atenção especial: são contrações breves e repetitivas do tronco e dos membros, geralmente em bebês (especialmente entre 4 e 12 meses), que ocorrem em séries. Podem ser o primeiro sinal da Síndrome de West, uma encefalopatia epiléptica grave que exige diagnóstico e tratamento urgentes.
O que fazer DURANTE uma crise
Faça:
- Coloque a criança deitada de lado (posição de recuperação) para evitar engasgos
- Proteja a cabeça, coloque algo macio embaixo (uma roupa dobrada), afaste objetos duros do alcance
- Cronometre: marque o tempo de início da crise
- Fique calmo e presente
- Após a crise, deixe a criança descansar, é normal ficar sonolenta e confusa por alguns minutos
Não faça:
- Não segure a criança com força, isso não interrompe a crise e pode machucar
- Não coloque nada na boca, a criança não engole a língua; objetos na boca causam acidentes
- Não ofereça água ou remédio durante a crise
Quando chamar o SAMU (192) ou ir ao pronto-socorro
Chame socorro imediatamente se:
- A crise dura mais de 5 minutos (risco de estado de mal epiléptico)
- A criança não recupera a consciência entre duas crises
- A criança tem dificuldade de respirar após a crise
- É a primeira crise da criança e você não sabe o que ela tem
- A crise ocorreu dentro da água (risco de afogamento)
- A criança se machucou durante a crise
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico de epilepsia é clínico e complementado por exames. O EEG (eletroencefalograma) é o exame principal, registra a atividade elétrica cerebral, identifica padrões epileptiformes, ajuda a classificar o tipo de epilepsia e guia o tratamento. A ressonância magnética de encéfalo é solicitada em boa parte dos casos para identificar causas estruturais. Em alguns casos, investigação genética também é realizada.
Tratamento
Cerca de 70% das crianças com epilepsia atingem controle das crises com medicação antiepiléptica (MAE). O objetivo é zero crises, ou o menor número possível com o menor impacto sobre a qualidade de vida.
A escolha da medicação depende do tipo de crise, da síndrome epiléptica, da idade e de outros fatores individuais. Algumas epilepsias da infância são autolimitadas, a criança “sai” da epilepsia com o desenvolvimento, sem precisar de medicação para sempre.
Para os casos resistentes a medicação (cerca de 30%), existem outras abordagens: dieta cetogênica, cirurgia de epilepsia e estimulação do nervo vago.
Impacto na vida diária e na escola
Uma revisão sistemática publicada em 2023 na revista Seizure [3], conduzida por pesquisadores brasileiros do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul (InsCer/PUCRS), mostrou que distúrbios de sono, dificuldades de aprendizagem e problemas comportamentais são comorbidades frequentes em crianças com epilepsia, e que o acesso adequado ao neurologista e à medicação é fundamental para a estabilidade clínica.
Crianças com epilepsia bem controlada podem e devem participar de atividades escolares e sociais normalmente, com adaptações pontuais quando necessário. A escola precisa ser informada e orientada sobre o que fazer em caso de crise.
Quando procurar avaliação neurológica
Procure avaliação com o pediatra ou neurologista quando:
- A criança teve uma ou mais crises sem febre
- As crises febris são atípicas (prolongadas, focais, ou se repetem na mesma doença febril)
- Há episódios de ausência, olhar fixo repetitivo, “desligamentos” breves
- A criança apresenta espasmos (sacudidas em séries, especialmente em bebês)
- Há regressão do desenvolvimento associada a qualquer episódio neurológico
- O pediatra solicitou EEG e houve alteração
Epilepsia tem tratamento. Diagnóstico precoce e acompanhamento adequado fazem toda a diferença no prognóstico e na qualidade de vida da criança, e da família.
Leia também:
- Crise febril: o que fazer na hora e quando ir ao hospital
- Espasmos ao adormecer: normal ou epilepsia?
Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Vikin T, Lossius MI, Brandlistuen RE, Chin RF, Aaberg KM. Incidence of childhood and youth epilepsy: A population-based prospective cohort study utilizing current International League Against Epilepsy classifications for seizures, syndromes, and etiologies. Epilepsia. 2025;66(3):776-789. doi: 10.1111/epi.18238.
[2] Beniczky S, Trinka E, Wirrell E, et al. A practical guide to the updated seizure classification 2025. Epileptic Disorders. 2025;27(6):1087-1104. doi: 10.1002/epd2.70110.
[3] Dal-Pai J, Dos Santos MP, Donida NDS, et al. Health consequences and daily life modifications in children and adolescents with epilepsy during the COVID-19 pandemic — a systematic review. Seizure. 2023;108:102-115. doi: 10.1016/j.seizure.2023.04.017.
