Poucas situações assustam tanto os pais quanto ver o filho convulsionar durante um episódio de febre. A crise febril é mais comum do que se imagina — costuma acontecer entre os 6 meses e os 5 anos de idade, geralmente desencadeada por febre acima de 38ºC — e, embora pareça grave no momento, na grande maioria dos casos é benigna e não deixa sequelas.
O que é uma crise febril
É uma crise convulsiva associada à febre, sem outra causa neurológica identificada. Costuma se manifestar com perda de consciência, olhos revirados, rigidez do corpo e tremores nos braços e pernas, durando geralmente poucos minutos. A diretriz da American Academy of Pediatrics sobre avaliação neurodiagnóstica da criança com crise febril simples [1] e a revisão sistemática publicada em 2024 no periódico Pediatric Neurology, que comparou diferentes diretrizes internacionais sobre o tema [2], convergem nesse ponto: a crise febril simples, isolada, generalizada e com duração inferior a 15 minutos, em criança neurologicamente saudável, tem prognóstico benigno e não costuma exigir investigação extensa (como exames de imagem ou eletroencefalograma de rotina).
O que fazer durante a crise
- Mantenha a calma e deite a criança de lado, em superfície plana e segura
- Afaste objetos próximos que possam machucá-la
- Não coloque nada na boca da criança — isso não evita “engolir a língua” (o que não acontece) e pode causar lesão
- Não tente baixar a febre durante a crise — dar remédio pela boca nesse momento pode causar engasgo
- Observe e cronometre a duração — essa informação é importante para a avaliação médica depois
Depois que a crise passa
Reduza a febre com antitérmico, na dose orientada pelo pediatra, e retire excesso de roupa para favorecer o resfriamento natural do corpo. É comum a criança ficar sonolenta ou confusa por alguns minutos após a crise — isso, por si só, não é motivo de pânico.
Quando ir ao hospital
Na primeira crise febril, a orientação é sempre buscar avaliação médica, mesmo que o episódio já tenha terminado. Em qualquer episódio, procure atendimento de urgência (ou chame uma ambulância) principalmente se:
- A crise durar mais de 5 minutos sem sinais de parar
- A criança não recuperar a consciência completamente entre 30 minutos após o fim da crise
- Houver movimento ou rigidez de apenas um lado do corpo
- Houver mais de uma crise no mesmo episódio de febre
- A criança parecer muito doente além da febre (dificuldade para respirar, manchas na pele, muito sonolenta antes mesmo da crise)
E depois? Risco de recorrência
Crises febris podem se repetir em episódios futuros de febre — isso não significa epilepsia. O pediatra costuma orientar sobre o uso de antitérmicos e, em alguns casos, sobre medicação específica para ter em casa. Nunca administre anticonvulsivante por conta própria, sem orientação médica.
Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui avaliação médica. Toda criança que convulsiona deve ser avaliada por um profissional de saúde, mesmo após a crise cessar.
Referências bibliográficas
[1] Subcommittee on Febrile Seizures, American Academy of Pediatrics. Febrile Seizures: Guideline for the Neurodiagnostic Evaluation of the Child With a Simple Febrile Seizure. Pediatrics. 2011;127(2):389-394.
[2] Corsello A, Marangoni MB, Macchi M, Cozzi L, Agostoni C, Milani GP, Dilena R. Febrile Seizures: A Systematic Review of Different Guidelines. Pediatric Neurology. 2024;155:141-148.
