“Ele falava ‘mamãe’, ‘água’, ‘dá’. Apontava para o que queria. Olhava quando a gente chamava. E aí, de um mês para o outro, tudo sumiu.” Poucas experiências são tão angustiantes para uma família quanto ver a criança perder o que já tinha conquistado. A regressão autismo, ou regressão autística, é o nome que a medicina dá a esse fenômeno: a perda de habilidades de linguagem, interação social ou brincadeira que a criança já havia adquirido, geralmente entre 15 e 24 meses de idade.
Este artigo explica o que é a regressão, com que frequência acontece, o que a ciência sabe sobre suas causas, quais outras condições precisam ser descartadas e, principalmente, o que fazer quando ela é percebida.
Regressão autismo: o que é e o que não é
A regressão autística é definida como a perda clara e persistente de habilidades previamente estabelecidas, após um período de desenvolvimento aparentemente típico no primeiro ano de vida. As habilidades mais frequentemente perdidas são:
- Linguagem: a criança para de usar palavras que já dizia, ou o vocabulário encolhe drasticamente
- Comunicação não verbal: deixa de apontar, acenar, mostrar objetos aos pais
- Interação social: reduz o contato visual, para de responder ao nome, perde o interesse em brincar com outras pessoas
- Brincadeira: abandona jogos de imitação ou de faz de conta que já fazia
Não é regressão o platô, em que a criança para de progredir mas não perde o que tinha. Também não é regressão a variação normal de uma semana difícil por doença, mudança de rotina ou nascimento de irmão, em que a criança fica temporariamente mais fechada e volta ao padrão anterior em poucos dias. A regressão autística é sustentada: dura semanas ou meses e não reverte sozinha.
Com que frequência acontece
A regressão não é rara. Uma metanálise publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders [1], reunindo 85 estudos e 29.035 pessoas com TEA, estimou que 32% das crianças com autismo passam por algum tipo de regressão, com idade média de início aos 21 meses (1,78 ano). A regressão de linguagem isolada foi relatada em 25% dos casos, e a regressão combinada de linguagem e habilidades sociais em 38%.
Uma atualização dessa metanálise, publicada em 2021 na Autism Research [2], confirmou a proporção: cerca de um terço das crianças com TEA apresenta regressão relatada pelos pais, com idade de início consistentemente concentrada entre 18 e 24 meses.
Esses números, porém, provavelmente subestimam o fenômeno. Quando pesquisadores acompanham prospectivamente irmãos mais novos de crianças autistas, filmando e avaliando a cada poucos meses desde o nascimento, encontram algo diferente do que os pais relatam de memória.
O que os estudos prospectivos revelaram
Um estudo publicado no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry [3] acompanhou bebês de alto risco (irmãos de crianças autistas) desde os 6 meses, com avaliações padronizadas de contato visual, sorriso social e vocalizações dirigidas. Entre os que receberam diagnóstico de TEA aos 3 anos, a maioria mostrou declínio gradual dessas habilidades entre 6 e 18 meses, mesmo nos casos em que os pais não relataram regressão. Aos 6 meses, esses bebês eram indistinguíveis dos que tiveram desenvolvimento típico.
Uma revisão publicada na Neuroscience and Biobehavioral Reviews [4], sintetizando esses estudos prospectivos, propôs uma mudança de conceito: em vez de dois grupos separados (autismo “desde o início” versus autismo “regressivo”), o mais provável é que exista um espectro de trajetórias de início, em que a perda de habilidades é mais comum e mais gradual do que a memória dos pais consegue capturar. A regressão abrupta e dramática seria a ponta visível de um processo que, em muitas crianças, começa meses antes de forma sutil.
Isso tem uma implicação prática importante: a ausência de regressão relatada não exclui autismo, e a presença de regressão relatada não é um subtipo à parte, mas uma forma de apresentação.
O que a regressão não indica
A regressão autística não é causada por vacinas. Como os primeiros sinais aparecem na mesma faixa etária das vacinas do calendário, a coincidência temporal alimenta a crença, mas estudos com milhões de crianças em vários países não encontraram qualquer associação. Esse tema tem artigo próprio no blog.
A regressão também não indica que os pais fizeram algo errado, que a criança foi “traumatizada” ou que houve alguma exposição evitável. As evidências apontam para um processo neurobiológico que já estava em curso desde antes do nascimento e que se torna visível quando as demandas de comunicação social aumentam.
Regressão autismo: o que precisa ser descartado
Perda de habilidades em criança pequena é sempre um sinal de alerta que exige avaliação médica, não apenas porque pode ser autismo, mas porque algumas condições neurológicas se apresentam da mesma forma e têm tratamento específico:
Epilepsia e síndromes epilépticas. A síndrome de Landau-Kleffner (afasia epiléptica adquirida) causa perda de linguagem, geralmente entre 3 e 7 anos, associada a alterações no eletroencefalograma durante o sono. A encefalopatia com ponta-onda contínua do sono também pode causar regressão cognitiva e comportamental. Ambas exigem EEG de sono e tratamento anticonvulsivante. Crianças com TEA também têm risco aumentado de epilepsia, e a coexistência precisa ser investigada.
Síndrome de Rett. Afeta quase exclusivamente meninas e se caracteriza por regressão entre 6 e 18 meses, com perda do uso funcional das mãos, movimentos estereotipados de “lavar as mãos”, desaceleração do crescimento da cabeça e, frequentemente, alterações respiratórias. O diagnóstico é genético (gene MECP2).
Doenças metabólicas e neurodegenerativas. Raras, mas com regressão progressiva (a criança continua perdendo habilidades ao longo do tempo, em vez de estabilizar). Perda motora, convulsões de difícil controle, alterações de exame físico e regressão contínua são sinais de alerta para investigação ampliada.
Perda auditiva adquirida. Otites de repetição com efusão crônica podem reduzir a audição de forma suficiente para impactar a linguagem. Toda criança com regressão de linguagem deve ter a audição avaliada.
Uma característica diferencia a regressão autística das condições progressivas: na regressão autística, a perda acontece dentro de uma janela definida, estabiliza e é seguida de novo progresso (ainda que com atraso). Uma criança que continua perdendo habilidades mês após mês precisa de investigação neurológica urgente.
Regressão e prognóstico
Estudos que compararam crianças com TEA com e sem regressão relatada encontraram diferenças modestas. Um estudo publicado em 2023 no Journal of the Korean Academy of Child and Adolescent Psychiatry [5] observou que o grupo com regressão apresentava, no momento do diagnóstico, maior gravidade de sintomas e maior atraso em comportamento adaptativo. Outros estudos longitudinais, porém, mostram que essa diferença tende a diminuir com intervenção adequada, e que a trajetória depende mais da precocidade e intensidade da intervenção do que do padrão de início.
Um estudo brasileiro publicado na Psicologia: Teoria e Pesquisa [6], analisando o perfil sintomatológico de pré-escolares com TEA e regressão de linguagem oral, identificou que as habilidades mais comprometidas nesse grupo foram o direcionamento de atenção, a conversação recíproca e o uso repetitivo de objetos. Esse perfil é útil para orientar os alvos iniciais da intervenção: comunicação social funcional e atenção compartilhada, mais do que produção de palavras isoladas.
O que fazer quando a regressão é percebida
A regra é simples: perda de habilidades não se observa, se investiga. Não existe justificativa para esperar “mais alguns meses” diante de uma criança que parou de falar ou de responder ao nome.
- Documente. Anote quando começou, o que foi perdido e se houve algum evento associado. Vídeos de antes e depois têm enorme valor para o médico avaliador.
- Procure o pediatra imediatamente e peça encaminhamento para avaliação de neurodesenvolvimento. Descreva a perda de forma objetiva: “dizia 8 palavras, agora não diz nenhuma”.
- Peça avaliação auditiva (audiometria ou BERA, conforme idade).
- Pergunte sobre EEG. Se houver qualquer suspeita de crise, episódios de “desligamento”, alteração do sono ou regressão após os 3 anos, o EEG de sono é indicado.
- Inicie estimulação sem esperar o laudo. Fonoaudiologia e intervenção naturalística podem começar com base na queixa funcional. O diagnóstico formal pode levar meses; a criança não deve esperar por ele.
- Se o plano de saúde negar, a RN ANS 539/2022 garante cobertura ilimitada de terapias para TEA, e a queixa pode ser registrada diretamente na ANS.
A regressão assusta porque parece que algo foi tirado da criança. Mas as habilidades perdidas não desaparecem para sempre: com intervenção precoce e intensiva, a maioria das crianças volta a progredir. O que não volta é o tempo perdido esperando.
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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Barger BD, Campbell JM, McDonough JD. Prevalence and onset of regression within autism spectrum disorders: a meta-analytic review. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2013;43(4):817-828. doi: 10.1007/s10803-012-1621-x.
[2] Tan C, Frewer V, Cox G, Williams K, Ure A. Prevalence and age of onset of regression in children with autism spectrum disorder: a systematic review and meta-analytical update. Autism Research. 2021;14(3):582-598. doi: 10.1002/aur.2463.
[3] Ozonoff S, Iosif AM, Baguio F, et al. A prospective study of the emergence of early behavioral signs of autism. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2010;49(3):256-266. doi: 10.1016/j.jaac.2009.11.009.
[4] Ozonoff S, Iosif AM. Changing conceptualizations of regression: what prospective studies reveal about the onset of autism spectrum disorder. Neuroscience and Biobehavioral Reviews. 2019;100:296-304. doi: 10.1016/j.neubiorev.2019.03.012.
[5] Lee H, et al. Loss of acquired skills: regression in young children with autism spectrum disorders. Journal of the Korean Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2023;34(1):51-56. doi: 10.5765/jkacap.220029.
[6] Backes B, Zanon RB, Bosa CA. Características sintomatológicas de crianças com autismo e regressão da linguagem oral. Psicologia: Teoria e Pesquisa. 2017;33:e3343. doi: 10.1590/0102.3772e3343.
