Nenhum tema gera mais angústia — e mais dúvidas — nos pais de crianças pequenas do que a suspeita de autismo. Quando uma mãe percebe que o filho não responde ao nome ou ainda não aponta para mostrar algo, a primeira reação costuma ser uma mistura de preocupação e incerteza: “Será que é coisa da minha cabeça? Devo esperar mais um pouco?”
A resposta da ciência é clara: não. Esperar sem investigar pode ter custo real. E identificar cedo, mesmo que a confirmação diagnóstica venha depois, abre portas para intervenções que fazem diferença — especialmente na janela dos primeiros dois anos de vida, quando o cérebro ainda está em sua fase de maior plasticidade.
Este artigo apresenta o que a pesquisa identifica como sinais de atenção antes dos 24 meses, como funciona a triagem pediátrica com o M-CHAT-R, e o que fazer ao notar algo que preocupa.
Por que a idade importa tanto
O cérebro de uma criança nos primeiros anos de vida está em permanente reorganização — conexões neurais se formam e se consolidam em ritmo acelerado. Essa plasticidade é justamente o que torna o período pré-escolar tão valioso para intervenções terapêuticas.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 na revista Autism Research [1] avaliou o impacto de intervenções muito precoces (iniciadas entre 9 e 24 meses) em bebês com maior probabilidade de autismo. Os resultados mostraram evidências de baixa a moderada certeza — o que também reflete os limites metodológicos dos estudos disponíveis, não necessariamente a ausência de benefício. O que o conjunto da literatura indica de forma consistente é que iniciar avaliação e suporte antes dos 2 anos está associado a melhores desfechos de linguagem e desenvolvimento social do que aguardar uma confirmação diagnóstica mais tardia.
O que a pesquisa identifica antes dos 12 meses
É possível observar diferenças de desenvolvimento antes mesmo do primeiro aniversário? Sim — mas com cautela. Uma revisão sistemática de 25 estudos publicada em 2023 na Neuroscience & Biobehavioral Reviews [2] investigou marcadores comportamentais em bebês de 0 a 6 meses que mais tarde receberam diagnóstico de autismo. Os pesquisadores encontraram evidências limitadas mas existentes de diferenças em atenção geral, atenção a estímulos sociais e comportamentos motores — embora os resultados tenham sido inconsistentes quanto a comportamentos sociais e de comunicação nesse período.
Isso significa que, antes dos 12 meses, os sinais ainda são sutis e inespecíficos. Não se faz triagem ou diagnóstico nessa faixa. O que os pais e pediatras podem fazer é estar atentos ao padrão geral de desenvolvimento.
Dos 12 aos 24 meses: os sinais mais reconhecidos
É nessa janela que os marcadores comportamentais se tornam mais consistentes e clinicamente reconhecidos. Os principais sinais de atenção nesse período incluem:
Comunicação e linguagem
- Ausência de balbucio com variação de tom até os 12 meses
- Não dizer nenhuma palavra com intenção comunicativa até os 16 meses
- Não combinar duas palavras de forma espontânea até os 24 meses
- Perda de palavras ou sons que a criança já produzia (ver seção sobre regressão abaixo)
Comunicação não-verbal
- Não apontar para mostrar interesse em algo (apontar “proto-declarativo”) até os 12–14 meses
- Não gesticular — não dar tchau, não bater palmas em resposta ao adulto
- Ausência de atenção compartilhada: a criança não olha para o adulto depois de ver algo interessante para “checar” se ele também está vendo
Interação social
- Não responder ao próprio nome quando chamado — especialmente quando repetido com a criança próxima e sem barulho ao redor
- Pouco ou nenhum contato visual espontâneo
- Pouco interesse em interação face a face
- Não imitar ações simples do adulto (bater numa mesa, fazer caretas)
Comportamento e sensorialidade
- Movimentos repetitivos com as mãos, os dedos ou o corpo (estereotipias motoras)
- Interesse intensamente restrito a objetos específicos, especialmente em partes dos objetos (girar rodas, enfileirar brinquedos)
- Hipersensibilidade a sons, texturas ou toques — reações de choro ou fuga intensa a estímulos sensoriais que não incomodam outras crianças
- Apego rígido a rotinas com resistência intensa a qualquer mudança
Nenhum desses sinais, isoladamente, confirma autismo. Muitas crianças com desenvolvimento típico apresentam algum desses comportamentos em algum momento. O que a clínica avalia é o conjunto, a persistência e a combinação deles.
Regressão: o sinal que nunca deve ser ignorado
Entre os sinais de atenção, há um que merece atenção especial: a regressão. É quando a criança perde habilidades que já havia conquistado — para de balbuciar depois de já balbuciar, perde palavras que havia adquirido, deixa de responder ao nome quando antes respondia, reduz o contato visual que antes era presente.
Isso pode acontecer de forma súbita ou gradual, geralmente entre os 15 e os 24 meses. Qualquer regressão em linguagem, comunicação ou habilidades sociais deve ser comunicada ao pediatra imediatamente — sem esperar a próxima consulta de rotina.
O que não é (necessariamente) sinal de autismo
A ansiedade dos pais muitas vezes leva à suspeita de autismo em comportamentos que têm explicações comuns ou que são variações normais do desenvolvimento. Alguns exemplos do que, isoladamente, não é indicativo:
- Atraso de fala isolado, sem outros sinais sociais ou comportamentais — tem causas múltiplas, a maioria não relacionada ao autismo
- Ser “muito na dele” ou preferir brincar sozinho — introversão e independência são traços de temperamento, não sinais de autismo
- Birras intensas — muito comuns em crianças de 18 a 36 meses como parte do desenvolvimento emocional típico
- Andar na ponta dos pés — é um sinal que entra no conjunto de observações quando associado a outros, mas que isoladamente não indica diagnóstico de nada
- Não olhar para a câmera nas fotos — comportamento típico de muitas crianças pequenas
A triagem no consultório: M-CHAT-R
O principal instrumento de triagem para autismo em crianças pequenas é o M-CHAT-R (Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised) — um questionário respondido pelos pais durante a consulta de puericultura, geralmente aplicado aos 18 meses.
Uma meta-análise publicada em 2023 na JAMA Pediatrics [3], que reuniu dados de 50 estudos com milhares de crianças, calculou sensibilidade combinada de 83% (IC 95%: 77–88%) e especificidade de 94% (IC 95%: 89–97%) para o instrumento. Em termos práticos: quando o M-CHAT-R dá positivo, a chance de a criança realmente ter algum sinal de alerta é alta; quando dá negativo, a probabilidade de estar tranquilo é também elevada — mas não é 100%, e a vigilância clínica deve continuar.
Uma segunda meta-análise, publicada no mesmo ano na Pediatrics [4], confirmou o alto valor preditivo negativo do instrumento: um resultado negativo no M-CHAT-R é uma informação tranquilizadora, mas não substitui o acompanhamento pediátrico contínuo.
Importante: o M-CHAT-R é uma ferramenta de triagem, não de diagnóstico. Um resultado positivo indica que a criança deve ser encaminhada para avaliação especializada — não que ela tem autismo.
Quando conversar com o pediatra
Vale levar a observação ao pediatra (ou procurar avaliação especializada por encaminhamento) quando:
- Houver qualquer regressão em linguagem, comunicação ou habilidades sociais — em qualquer idade
- A criança não responder ao próprio nome de forma consistente até os 12 meses
- Não houver nenhum gesto comunicativo (apontar, dar tchau) até os 14 meses
- Nenhuma palavra com intenção comunicativa até os 16 meses
- O pediatra aplicar o M-CHAT-R e o resultado indicar necessidade de acompanhamento
- Os pais sentirem que algo não está certo no desenvolvimento social da criança — mesmo sem saber nomear o quê
A avaliação precoce não é sinônimo de diagnóstico — é o primeiro passo para entender o que está acontecendo e, se necessário, iniciar suporte. Na grande maioria das vezes, a avaliação traz tranquilidade. Quando identifica algo, abre a janela mais importante para a intervenção.
Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] McGlade N, Troller-Renfree SV, McPartland JC, et al. Efficacy of very early interventions on neurodevelopmental outcomes for infants and toddlers at increased likelihood of or diagnosed with autism: A systematic review and meta-analysis. Autism Research. 2023;16(6):1145-1160. doi: 10.1002/aur.2924.
[2] Cleary DB, Maybery MT, Green C, Whitehouse AJO. The first six months of life: A systematic review of early markers associated with later autism. Neuroscience & Biobehavioral Reviews. 2023;152:105304. doi: 10.1016/j.neubiorev.2023.105304.
[3] Wieckowski AT, Williams LN, Rando J, Lyall K, Robins DL. Sensitivity and Specificity of the Modified Checklist for Autism in Toddlers (Original and Revised): A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatrics. 2023;177(4):373-383. doi: 10.1001/jamapediatrics.2022.5975.
[4] Aishworiya R, Ma VK, Stewart S, Hagerman R, Feldman HM. Meta-analysis of the Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised/Follow-up for Screening. Pediatrics. 2023;151(6):e2022059393. doi: 10.1542/peds.2022-059393.
