Espasmos ao adormecer: normal ou epilepsia? As 3 diferenças que importam

Os espasmos ao adormecer são um dos motivos mais frequentes de consulta pediátrica, e quase sempre geram ansiedade desnecessária nos pais.

O filho adormece e de repente dá um solavanco. Os braços sacudem, as perninhas chutam, e ele pode até acordar assustado por um instante. Ou a cena acontece com a criança maior, aquele tremor involuntário logo ao cair no sono, que às vezes acorda com sensação de tombo. A pergunta que chega ao consultório é sempre parecida: “É normal? Pode ser epilepsia?”

A resposta depende do contexto, da idade da criança, de como o espasmo acontece, e de alguns sinais que mudam tudo.

Os espasmos ao adormecer que quase todo mundo já sentiu

Você está adormecendo e, de repente, tem a sensação de levar um susto ou de cair, e acorda num sobressalto. Esse fenômeno tem nome: mioclonia hipnagógica, também chamada de sleep start ou espasmo hipnagógico.

É completamente normal. Ocorre na transição da vigília para o sono, especialmente no estágio mais superficial do sono (NREM N1), quando o cérebro começa a “desligar” os sistemas de controle motor, mas o processo não acontece de forma absolutamente suave em todo mundo. O resultado é uma contração muscular brusca e involuntária, às vezes acompanhada de imagem de sonho e sensação de queda.

Qualquer pessoa pode ter. Crianças, adolescentes, adultos. Cansaço, privação de sono, estresse e cafeína aumentam a frequência, mas o fenômeno em si não indica problema neurológico. Não é epilepsia.

Mioclonia benigna do sono da infância

Em bebês, especialmente nos primeiros meses de vida, existe uma condição chamada mioclonia benigna do sono neonatal (MBSN). O bebê, já adormecido, apresenta movimentos rítmicos e repetitivos dos membros: tremores nas mãos, braços ou pernas, que podem durar de segundos a minutos.

O que define esse quadro e o distingue de uma crise epiléptica é que os movimentos ocorrem exclusivamente durante o sono e cessam imediatamente quando o bebê é acordado. O EEG é normal. O bebê está bem, desenvolve-se normalmente, e os episódios desaparecem espontaneamente em semanas a poucos meses.

Uma revisão publicada em 2019 na Epileptic Disorders [1] descreveu cinco tipos de eventos paroxísticos não epilépticos na infância, entre eles a MBSN, e reforçou que uma anamnese cuidadosa, com atenção às circunstâncias em que ocorrem os movimentos, é suficiente para diferenciar a MBSN de crises epilépticas na grande maioria dos casos, sem necessidade de exames desnecessários.

“Repetitive sleep starts” — quando os espasmos se repetem em série ao adormecer

Existe um padrão intermediário que pode gerar confusão: os chamados repetitive sleep starts (RSS), ou espasmos repetitivos ao adormecer. A criança, no momento em que está pegando no sono (transição vigília-sono), apresenta contrações que se repetem várias vezes em sequência, 5, 10, às vezes dezenas de vezes seguidas, envolvendo membros e tronco.

O problema é que esse padrão se parece visualmente com espasmos epilépticos (o tipo característico da Síndrome de West). A diferença clínica mais importante é que os RSS ocorrem na transição para o sono e o EEG não mostra alteração epiléptica. São eventos benignos, que desaparecem espontaneamente.

Um estudo publicado em 2021 na Epilepsy & Behavior [2], que estudou 9 crianças com RSS de forma clínico-eletroencefalográfica, alertou justamente para esse ponto: os RSS são um diagnóstico diferencial importante dos espasmos infantis (epilépticos) e identificá-los corretamente evita o uso desnecessário de medicações antiepilépticas, com seus potenciais efeitos adversos.

Espasmos epilépticos — o que não pode esperar

Os espasmos epilépticos, típicos da Síndrome de West, têm um perfil muito diferente e urgente. São contrações breves e bruscas do tronco e dos membros (flexão do pescoço, elevação dos braços, dobramento do tronco), que ocorrem em séries, várias vezes seguidas, geralmente ao acordar ou logo após adormecer (não na transição para o sono, como os RSS), e que se repetem ao longo do dia.

Diferente da mioclonia hipnagógica e da MBSN, o bebê não está bem. Com frequência há parada no desenvolvimento, perda de sorriso social e alterações importantes no EEG (o padrão chamado hipsarritmia). A faixa etária clássica é entre 4 e 12 meses.

A Síndrome de West é uma encefalopatia epiléptica grave. O diagnóstico e o início do tratamento precisam ser urgentes, o tempo entre o primeiro espasmo e o início da terapia é um fator que impacta diretamente o prognóstico neurológico.

Se você observar espasmos em série em um bebê, especialmente com mais de 4 meses, e tiver qualquer dúvida, o caminho certo é buscar avaliação neurológica sem demora.

Epilepsia hipermotora do sono (antes chamada epilepsia frontal noturna)

Em crianças maiores, existe outro padrão que pode confundir os pais: a epilepsia hipermotora do sono (SHE, antes chamada epilepsia frontal noturna). Não é bem um espasmo ao adormecer, são episódios de movimentos complexos durante o sono: agitação, vocalização, movimentos de pedalar, se sentar na cama, e às vezes gritar.

O que diferencia das parasonias comuns (sonambulismo, terror noturno) é a estereotipia (os episódios são sempre muito parecidos entre si), a alta frequência (podem ocorrer várias vezes por noite) e a brevidade (duram segundos a poucos minutos, em contraste com os terrores noturnos que podem durar mais).

Um estudo publicado em 2025 na Epilepsy Research [3], com 47 crianças com SHE, encontrou que 66% dos casos tinham início frontal no EEG ictal, e cerca de 36% tinham causa estrutural identificada (principalmente displasia cortical focal). A maioria respondeu a medicação antiepiléptica, e os casos refratários se beneficiaram de cirurgia de epilepsia.

Para os pais: a SHE não é um “espasmo ao adormecer” típico, é uma epilepsia que se manifesta durante o sono, com movimentos mais elaborados e estereotipados.

Como diferenciar — guia rápido

O contexto é tudo. Uma revisão retrospectiva de 1.173 crianças submetidas a videoeletroencefalograma publicada em 2023 na Seizure [4] mostrou que movimentos motores fisiológicos durante o sono foram responsáveis por 14,6% dos eventos não epilépticos, e que o correto reconhecimento desses padrões evitou o uso desnecessário de antiepilépticos em 25% das crianças estudadas.

Tranquilizadores (mais provavelmente benignos):

  • Espasmo único, isolado, no momento de pegar no sono — clássica mioclonia hipnagógica
  • Movimentos apenas durante o sono profundo em bebê saudável, que cessam ao acordar — pensar em MBSN
  • Criança que desenvolve normalmente, sem outros sinais de alerta

Que pedem avaliação médica:

  • Espasmos repetitivos em série, especialmente em bebês entre 4 e 12 meses
  • Espasmos associados a parada no desenvolvimento ou perda de habilidades
  • Episódios noturnos estereotipados, frequentes, com vocalização e agitação intensa (pensar em SHE)
  • Qualquer dúvida, uma avaliação com o pediatra ou neuropediatra é sempre o caminho certo

O diagnóstico de certeza, quando necessário, é feito com videoeletroencefalograma, o exame que permite correlacionar o comportamento observado com a atividade elétrica cerebral em tempo real.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.

Referências bibliográficas

[1] Nagy E, Hollody K. Paroxysmal non-epileptic events in infancy: five cases with typical features. Epileptic Disorders. 2019;21(5):458-462. doi: 10.1684/epd.2019.1098.

[2] Maki Y, Kidokoro H, Okumura A, et al. Repetitive sleep starts: An important differential diagnosis of infantile spasms. Epilepsy & Behavior. 2021;121(Pt A):108075. doi: 10.1016/j.yebeh.2021.108075.

[3] Tan X, Liu H, Li Y, et al. Clinical and EEG characteristics of sleep-related hypermotor epilepsy in children. Epilepsy Research. 2025;218:107664. doi: 10.1016/j.eplepsyres.2025.107664.

[4] Yavuz P, Gunbey C, Karahan S, et al. Non-epileptic paroxysmal events at pediatric video-electroencephalography monitoring unit over a 15-year period. Seizure. 2023;108:89-95. doi: 10.1016/j.seizure.2023.04.016.