TEA nível 1, 2 e 3: o que os graus de suporte significam (e o que não dizem)

Quando a família recebe o laudo de autismo, frequentemente aparece uma numeração: TEA nível 1, 2 ou 3 de suporte. E com a numeração, vêm perguntas e, muitas vezes, interpretações equivocadas.

O que esses níveis significam? O que está sendo avaliado? E o que eles não dizem?

O sistema de classificação por TEA nível 1, 2 e 3 de grau de suporte foi criado para descrever a heterogeneidade do autismo, mas frequentemente é mal interpretado.

TEA nível 1, 2 e 3: de onde vêm os graus de suporte

O sistema de classificação por graus de necessidade de suporte foi introduzido pelo DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição) em 2013 e mantido no DSM-5-TR de 2022 [2]. Antes disso, existiam diagnósticos separados: Transtorno Autista, Síndrome de Asperger, TID-SOE. O DSM-5 unificou todos sob o guarda-chuva de TEA e criou os três níveis para descrever a heterogeneidade dentro do diagnóstico.

A avaliação de nível é feita separadamente para dois domínios: comunicação social e comportamentos restritivos e repetitivos. Uma criança pode ter nível 1 em um domínio e nível 2 em outro.

O que cada nível descreve

Nível 1 — “Requer suporte”

Sem suporte, há déficits perceptíveis na comunicação social, mas comunicação verbal está presente. As dificuldades aparecem com mais clareza em contextos de demanda social elevada. Uma revisão brasileira publicada em 2026 na Trends in Psychiatry and Psychotherapy [1] ressalta que indivíduos com TEA nível 1 frequentemente desenvolvem estratégias de mascaramento e compensação: aprendem a parecer mais adaptados socialmente do que de fato estão. O sofrimento real pode estar muito além do que é visível externamente. “Nível 1” não é sinônimo de “leve” no sentido de “sem sofrimento” ou “sem necessidade de acompanhamento”.

As consequências desse mascaramento têm peso documentado. Uma metanálise publicada em 2024 na Research in Autism Spectrum Disorders [3], reunindo estudos sobre camouflaging em pessoas autistas, encontrou correlação significativa e moderada entre mascaramento e piores desfechos de saúde mental: maiores índices de depressão, ansiedade, menor autoestima e menor autenticidade nas relações interpessoais. O mascaramento é mais frequente em mulheres e em pessoas com TEA nível 1, o que ajuda a explicar por que o sofrimento real frequentemente não é proporcional ao que é visível de fora.

Nível 2 — “Requer suporte substancial”

Há déficits marcados em comunicação social com ou sem suporte. A fala pode estar presente, mas a comunicação espontânea é reduzida. Comportamentos repetitivos são suficientemente frequentes para interferir no funcionamento em múltiplos contextos.

Nível 3 — “Requer suporte muito substancial”

Déficits graves de comunicação social verbal e não-verbal. A fala pode ser muito limitada ou ausente. Comportamentos repetitivos e inflexibilidade interferem de maneira significativa no funcionamento diário, demandando apoio intenso na maior parte dos contextos de vida.

O que os níveis não dizem

Inteligência. O nível de suporte não descreve capacidade cognitiva. Uma pessoa com TEA nível 3 pode ter QI preservado; uma com TEA nível 1 pode ter deficiência intelectual associada. São dimensões independentes.

Sofrimento. Pessoas com TEA nível 1 frequentemente relatam altos níveis de sofrimento, ansiedade e esgotamento, exatamente pelo esforço de adaptar comportamentos ao longo da vida sem diagnóstico e sem suporte adequado.

Prognóstico permanente. Os níveis podem mudar com a idade, com intervenção e com o contexto. Uma criança com nível 2 aos 4 anos pode apresentar funcionamento diferente aos 10, com intervenção precoce adequada.

Quem “merece” tratamento. Uma crença equivocada é que o plano de saúde só precisa cobrir terapias para TEA nível 2 ou 3. Isso é incorreto: a Resolução Normativa 539/2022 da ANS determina cobertura sem limite de sessões para qualquer diagnóstico de TEA, independente do nível.

Os níveis de suporte podem mudar com intervenção

Uma dúvida frequente das famílias é se o nível de suporte atribuído no diagnóstico é permanente. Não é. Os níveis do DSM-5 descrevem o funcionamento em um momento específico e podem mudar com a idade, com o contexto e com intervenção adequada.

Um estudo longitudinal publicado em 2025 na Frontiers in Pediatrics [4], com 60 crianças com TEA acompanhadas por seis meses (30 em programa ABA e 30 no Modelo Denver de Início Precoce), documentou melhoras significativas em linguagem verbal e pré-verbal, linguagem expressiva, linguagem receptiva, reciprocidade social e características comportamentais. Ambas as abordagens produziram ganhos em múltiplos domínios, incluindo domínios que determinam diretamente o nível de suporte.

Isso não significa que toda criança com TEA nível 2 ou 3 “chegará ao nível 1”. Significa que o nível é um ponto de partida, não um destino. Intervenção precoce, intensiva e bem planejada tem impacto real e documentado no funcionamento da criança ao longo do desenvolvimento.

Uma classificação que ainda está sendo aprimorada

O sistema de 3 níveis tem sido debatido na comunidade científica. Pesquisadores apontam que ele captura a heterogeneidade do TEA de forma incompleta, a variabilidade dentro de cada nível é enorme, e o mesmo número pode descrever perfis clínicos muito diferentes.

O nível de suporte é um ponto de partida para orientar a intensidade do cuidado necessário. Não é um teto para as possibilidades da pessoa, nem um termômetro de quanto ela “tem autismo”.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.

Referências bibliográficas

[1] Lage LAS, Vascononcelos-Moreno MP, Lemann RS, Heidemann CVC, Kapczinski F, Nardi AE. Clinical constructs and historical insights of the autism spectrum disorder in adults. Trends in Psychiatry and Psychotherapy. 2026. doi: 10.47626/2237-6089-2026-1309.

[2] American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, 5th ed. (DSM-5). Washington, DC: American Psychiatric Association; 2013.

[3] Khudiakova V, Russell E, Sowden-Carvalho S, Surtees ADR. A systematic review and meta-analysis of mental health outcomes associated with camouflaging in autistic people. Research in Autism Spectrum Disorders. 2024;118:102492. doi: 10.1016/j.rasd.2024.102492.

[4] Du Y, Yang X, Wang M, Lv Q, Zhou H, Sang G. Longitudinal changes in children with autism spectrum disorder receiving applied behavior analysis or early start denver model interventions over six months. Frontiers in Pediatrics. 2025. doi: 10.3389/fped.2025.1546001.