Funções executivas: o que são e por que a criança com TDAH tropeça nelas

Ele sabe a matéria, mas esquece de entregar a lição. Começa o dever, levanta para beber água e volta 20 minutos depois sem lembrar onde parou. A mochila parece um buraco negro, os prazos pegam a família de surpresa e qualquer mudança de plano vira crise. Para muitos pais de crianças com TDAH, o problema não é falta de inteligência nem de vontade. É algo que tem nome: funções executivas, o conjunto de habilidades que o cérebro usa para organizar, planejar, frear impulsos e manter o foco no que importa.

Este artigo explica o que são as funções executivas, como elas amadurecem, o que os estudos mostram sobre elas no TDAH, o que realmente ajuda e o que tem pouca evidência, apesar da propaganda.

Funções executivas: o que são

Uma revisão de referência publicada na Annual Review of Psychology [1] descreve três funções executivas centrais:

  • Controle inibitório: frear a resposta automática para fazer a que é mais adequada. Esperar a vez, não responder antes de terminar a pergunta, resistir à tentação de olhar o celular
  • Memória de trabalho: segurar informações na cabeça enquanto as usa. Lembrar das três instruções da professora, fazer conta de cabeça, acompanhar uma história
  • Flexibilidade cognitiva: mudar de estratégia, de ponto de vista ou de atividade quando necessário

A partir delas se constroem habilidades mais complexas, como planejar, organizar, administrar o tempo e resolver problemas. Uma forma simples de explicar para a família: as funções executivas são a torre de controle do cérebro. Não decolam nem pousam os aviões, mas organizam quem vai primeiro, quando e por onde.

A mesma revisão lembra que estresse, falta de sono, solidão e falta de atividade física prejudicam as funções executivas em qualquer pessoa, e que elas podem melhorar com prática. Esses dois pontos vão ser importantes mais adiante.

Um cérebro que amadurece mais tarde

As funções executivas dependem principalmente do córtex pré-frontal, a região logo atrás da testa, que é uma das últimas a amadurecer e continua se desenvolvendo até o início da vida adulta. Por isso nenhuma criança de 8 anos organiza a mochila como um adulto.

No TDAH, esse amadurecimento parece acontecer com atraso. Um estudo publicado na PNAS [2] acompanhou 223 crianças com TDAH e 223 sem TDAH com mais de 800 ressonâncias magnéticas ao longo do tempo. A espessura do córtex atingiu o pico, em média, aos 10,5 anos nas crianças com TDAH e aos 7,5 anos nas demais, um atraso de cerca de três anos, mais evidente justamente nas regiões pré-frontais ligadas ao controle da atenção e ao planejamento.

Na prática, isso ajuda a ajustar a expectativa: em organização e autocontrole, muitas crianças com TDAH funcionam como crianças um pouco mais novas, mesmo quando a inteligência e o vocabulário estão à frente da idade. Não é preguiça. É um cérebro que está chegando lá em outro ritmo, e que precisa de mais apoio externo enquanto isso.

Funções executivas no TDAH: o que os estudos mostram

Uma metanálise publicada na Biological Psychiatry [3], com 83 estudos e mais de 6.700 crianças com e sem TDAH, encontrou diferenças de tamanho moderado nas tarefas de função executiva. As mais consistentes foram em controle inibitório, vigilância (manter a atenção ao longo do tempo), memória de trabalho e planejamento.

Mas a mesma metanálise trouxe um achado que muitas famílias não conhecem: nem toda criança com TDAH tem déficit de funções executivas nos testes. Os autores concluíram que essas dificuldades não são necessárias nem suficientes para explicar todos os casos. Um trabalho do mesmo grupo [4] reforça que apenas um subgrupo das crianças com TDAH apresenta déficit executivo, e que o transtorno tem mais de um caminho. Um estudo brasileiro com 216 crianças do 3º e 4º anos, publicado na Dementia & Neuropsychologia [5], encontrou algo parecido: o grupo com sintomas de TDAH não diferiu do grupo controle na maioria das tarefas executivas aplicadas.

Duas consequências práticas:

  • Um teste neuropsicológico normal não descarta TDAH. O diagnóstico é clínico, baseado em sintomas, histórico e impacto no dia a dia
  • Um déficit de funções executivas não é, sozinho, diagnóstico de TDAH. Ele aparece também em outras condições, como dificuldades de aprendizagem, autismo, ansiedade e privação de sono

Como isso aparece em casa e na escola

  • Controle inibitório: interrompe conversas, responde sem pensar, explode rápido, tem dificuldade de esperar
  • Memória de trabalho: esquece o que foi pedir no quarto, perde o fio da instrução no meio, erra contas simples por “esquecer o vai um”
  • Flexibilidade: trava quando o plano muda, insiste na mesma estratégia mesmo quando ela não funciona
  • Planejamento e organização: deixa o trabalho para a véspera, não sabe por onde começar uma tarefa grande, perde material
  • Gestão do tempo: “cinco minutos” duram uma hora; não percebe o tempo passando
  • Monitoramento: entrega a prova sem revisar, não percebe os próprios erros

Um detalhe que confunde os pais: a mesma criança que não consegue terminar a lição pode passar horas concentrada num jogo. Atividades com recompensa imediata e estímulo constante exigem muito menos das funções executivas do que uma tarefa longa, repetitiva e de recompensa distante.

O que ajuda de verdade

A estratégia com melhor evidência é colocar fora da cabeça da criança o que ela ainda não consegue fazer dentro dela. Um ensaio clínico randomizado publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology [6] testou um programa de treino de organização com 158 crianças com TDAH do 3º ao 5º ano, envolvendo pais e professores. Ao final, 60% das crianças tratadas deixaram de ter dificuldade significativa de organização, contra 3% do grupo em lista de espera, e o ganho se manteve no acompanhamento.

O que esse tipo de programa ensina, e que pode começar em casa:

  • Listas e quadros visíveis: a rotina da manhã, o que vai na mochila, os passos da lição
  • Dividir tarefas grandes em partes pequenas, com começo e fim claros
  • Tornar o tempo visível: relógio analógico, cronômetro, alarmes
  • Um lugar para cada coisa e uma checagem fixa antes de sair de casa
  • Instruções curtas, uma de cada vez, com contato visual, e pedir que a criança repita
  • Elogio imediato e específico quando ela usa a estratégia, não só quando acerta o resultado

O treinamento de pais também ajuda, mas é importante saber em quê. Uma metanálise publicada no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry [7] mostrou que as intervenções comportamentais melhoram o estilo de criação dos pais e reduzem problemas de conduta, mesmo quando avaliadas por observadores que não sabiam quem tinha sido tratado. Já a redução dos sintomas centrais do TDAH não se confirmou nessas avaliações cegas. Ou seja: o treino não “cura” o TDAH, mas melhora muito a convivência e o comportamento, o que já é bastante.

E os básicos contam: sono suficiente, atividade física regular e um ambiente menos estressante favorecem as funções executivas em qualquer criança [1].

E os remédios?

Os medicamentos para TDAH agem sobre a regulação de dopamina e noradrenalina, neurotransmissores importantes para o córtex pré-frontal. Uma metanálise publicada na Biological Psychiatry [8] mostrou que o metilfenidato melhora, em relação ao placebo, medidas de memória de trabalho e de controle inibitório, com efeitos de pequeno a moderado. Os autores ressaltam que o efeito do remédio sobre a cognição é menos claro do que o efeito sobre os sintomas. Na prática, a medicação pode facilitar o uso das estratégias, mas não ensina a criança a se organizar. As duas coisas costumam andar juntas. A decisão de usar remédio é sempre individual e feita com o médico que acompanha a criança.

O que tem pouca evidência: os jogos de “treino cerebral”

Programas de computador que prometem treinar a memória de trabalho e a atenção são muito vendidos para famílias de crianças com TDAH. A evidência é decepcionante. Uma metanálise publicada no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry [9], com 16 ensaios randomizados e 759 crianças, mostrou que esses programas melhoram o desempenho nos próprios testes de memória, mas não tiveram efeito significativo no desempenho escolar, e o treino específico de memória de trabalho não reduziu os sintomas de TDAH. Uma metanálise maior, publicada na Developmental Psychology [10], chegou à mesma conclusão: ganhos de curto prazo na tarefa treinada, sem transferência convincente para outras habilidades.

No Brasil, um programa de estimulação das funções executivas aplicado por 8 meses a crianças e adolescentes com TDAH, publicado nos Arquivos de Neuro-Psiquiatria [11], mostrou ganhos em atenção e memória de trabalho auditiva, mas nenhum efeito nas funções executivas mais complexas. Os próprios autores consideraram os resultados inconclusivos, com amostra pequena.

Isso não significa que jogos sejam proibidos. Significa que eles não substituem as estratégias do dia a dia, o apoio na escola e, quando indicado, o tratamento médico.

Quando procurar avaliação

Dificuldades de organização são comuns em qualquer criança. Vale procurar o pediatra quando elas são persistentes, aparecem em mais de um ambiente (casa e escola) e estão trazendo prejuízo: notas caindo apesar do esforço, conflitos diários, criança se sentindo “burra” ou “incapaz”. A avaliação médica investiga TDAH e outras causas, e a avaliação neuropsicológica, feita por psicólogo, pode mapear quais funções executivas estão mais difíceis, ajudando a planejar o apoio em casa e na escola.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.

Referências bibliográficas

[1] Diamond A. Executive functions. Annual Review of Psychology. 2013;64:135-168. doi: 10.1146/annurev-psych-113011-143750.

[2] Shaw P, Eckstrand K, Sharp W, et al. Attention-deficit/hyperactivity disorder is characterized by a delay in cortical maturation. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America. 2007;104(49):19649-19654. doi: 10.1073/pnas.0707741104.

[3] Willcutt EG, Doyle AE, Nigg JT, et al. Validity of the executive function theory of attention-deficit/hyperactivity disorder: a meta-analytic review. Biological Psychiatry. 2005;57(11):1336-1346. doi: 10.1016/j.biopsych.2005.02.006.

[4] Nigg JT, Willcutt EG, Doyle AE, Sonuga-Barke EJ. Causal heterogeneity in attention-deficit/hyperactivity disorder: do we need neuropsychologically impaired subtypes? Biological Psychiatry. 2005;57(11):1224-1230. doi: 10.1016/j.biopsych.2004.08.025.

[5] Koltermann G, Becker N, Lopes-Silva JB, et al. Are “cool” executive function impairments more salient in ADHD symptoms than in reading disability? Dementia & Neuropsychologia. 2020;14(1):47-55. doi: 10.1590/1980-57642020dn14-010008.

[6] Abikoff H, Gallagher R, Wells KC, et al. Remediating organizational functioning in children with ADHD: immediate and long-term effects from a randomized controlled trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2013;81(1):113-128. doi: 10.1037/a0029648.

[7] Daley D, van der Oord S, Ferrin M, et al. Behavioral interventions in attention-deficit/hyperactivity disorder: a meta-analysis of randomized controlled trials across multiple outcome domains. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2014;53(8):835-847. doi: 10.1016/j.jaac.2014.05.013.

[8] Coghill DR, Seth S, Pedroso S, et al. Effects of methylphenidate on cognitive functions in children and adolescents with attention-deficit/hyperactivity disorder: evidence from a systematic review and a meta-analysis. Biological Psychiatry. 2014;76(8):603-615. doi: 10.1016/j.biopsych.2013.10.005.

[9] Cortese S, Ferrin M, Brandeis D, et al. Cognitive training for attention-deficit/hyperactivity disorder: meta-analysis of clinical and neuropsychological outcomes from randomized controlled trials. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2015;54(3):164-174. doi: 10.1016/j.jaac.2014.12.010.

[10] Melby-Lervåg M, Hulme C. Is working memory training effective? A meta-analytic review. Developmental Psychology. 2013;49(2):270-291. doi: 10.1037/a0028228.

[11] Menezes A, Dias NM, Trevisan BT, et al. Intervention for executive functions in attention deficit and hyperactivity disorder. Arquivos de Neuro-Psiquiatria. 2015;73(3):227-236. doi: 10.1590/0004-282X20140225.