A relação entre TDAH e autoestima comprometida em crianças começa cedo, e raramente é percebida antes que o dano já esteja instalado.
“Presta atenção.” “Quantas vezes eu já falei?” “Você não consegue fazer nada direito?” “Por que você não é como os outros?”
Uma criança com TDAH ouve variações dessas frases dezenas de vezes por semana. De professores. De pais. De colegas. De si mesma. O que acontece com a autoestima de uma criança que é alvo constante de crítica, frustração e comparação negativa?
O que os dados mostram sobre TDAH e autoestima em crianças
Um estudo longitudinal publicado em 2024 em L’Encéphale [1], com 108 crianças de 6 a 12 anos com diagnóstico de TDAH, avaliou a autoestima no momento do diagnóstico e após seguimento com tratamento. O resultado no ponto de partida foi contundente: dois terços das crianças com TDAH tinham pontuações de baixa autoestima — em domínios que incluíam a percepção de si mesmo, desempenho escolar e relações sociais.
O estudo descreve o mecanismo com clareza: crianças com TDAH experimentam “fracassos repetitivos na escola e na vida social” e recebem “feedback negativo do ambiente”, o que coloca em risco o desenvolvimento da autoestima. A boa notícia é que após tratamento específico, houve melhora significativa da autoestima global, pessoal e social.
Como o ciclo funciona
O TDAH dificulta regulação da atenção, do impulso e da organização. Isso gera comportamentos que os adultos frequentemente interpretam como desobediência, preguiça ou descaso — e respondem com correção, punição ou frustração expressa.
A criança recebe a mensagem: você está errada. Você está falhando. Você deveria ser diferente.
Com o tempo, ela internaliza essa mensagem. Não mais como “meu comportamento foi inadequado agora”, mas como “eu sou inadequada”. A crítica deixa de ser externa e passa a ser interna. A autocrítica interna é ainda mais difícil de silenciar.
Esse ciclo tem consequências práticas: a criança evita desafios (para não falhar de novo), não pede ajuda (para não parecer incapaz), desiste antes de terminar (porque “não vai dar certo de qualquer jeito”) e desenvolve ansiedade e humor rebaixado.
O que acontece com meninas
O impacto emocional do TDAH não é igual para meninos e meninas. Uma revisão sistemática publicada em 2025 na Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry [2] encontrou que meninas com TDAH têm maior impacto na autoestima e no desenvolvimento social do que meninos — em parte porque tendem a ter apresentação mais internalizada (mais ansiedade, menos hiperatividade visível) e em parte porque o diagnóstico tarda mais a chegar. Meses ou anos de dificuldades sem explicação, sendo tratadas como falha pessoal, deixam marcas.
O que não ajuda
A lista de respostas que pioram o ciclo inclui estratégias bem-intencionadas:
- “Você é inteligente, só precisa se esforçar mais”: implica que a falta de esforço é o problema, reforçando a autoblame
- “Sua irmã não tem esse problema”: a comparação reforça a ideia de ser o filho defeituoso
- Retirar privilégios como consequência de comportamentos que a criança não controla
O que ajuda
O estudo de Sürig et al. [1] mostrou que o tratamento do TDAH em si — medicação e/ou intervenções psicossociais — melhora a autoestima. Quando o TDAH é tratado e a criança começa a funcionar melhor, o ciclo se inverte: menos críticas → menos fracassos → melhora gradual da autopercepção.
Nomear o TDAH como uma explicação, não uma desculpa: “Seu cérebro funciona de um jeito que dificulta ficar prestando atenção por muito tempo. Isso é real. E nós vamos trabalhar para ajudar.”
Separar o comportamento da pessoa: “O que você fez agora não foi legal” é diferente de “você nunca consegue nada direito”.
Buscar e celebrar pontos fortes: muitas crianças com TDAH têm criatividade, energia, humor e empatia intensa. Uma narrativa que inclua o que funciona bem é tão importante quanto o trabalho nas dificuldades.
Terapia cognitivo-comportamental: com foco em habilidades executivas e autocrítica, a TCC adaptada para TDAH tem evidência de benefício na autoestima.
O objetivo não é proteger a criança de toda frustração. É garantir que, ao final do dia, ela se sinta mais capaz do que incapaz.
Leia também:
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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Sürig L, Kerbage H, Courtabessis E, et al. Attention deficit hyperactivity disorder, self-esteem and the impact of treatments. L’Encéphale. 2024;50(6):603-609. doi: 10.1016/j.encep.2023.11.009.
[2] Dimitri D, Delia G, Cavallo F, Varini M, Fioretto F. Sex differences in children and adolescents with attention-deficit/hyperactivity disorder: a literature review. Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry. 2025;4:1582502. doi: 10.3389/frcha.2025.1582502.
