Setembro Amarelo: o que a ciência diz sobre crianças com autismo, TDAH e epilepsia

Todo mês de setembro, prédios se iluminam de amarelo, escolas fazem campanhas e as redes sociais se enchem de mensagens sobre prevenção do suicídio. Mas existe um grupo que quase nunca aparece nessas campanhas, e que os maiores estudos do mundo apontam como um dos mais vulneráveis: crianças e adolescentes com autismo, TDAH e epilepsia. Este artigo de Setembro Amarelo reúne o que a ciência sabe sobre esse risco, por que ele existe, quais sinais os pais podem observar e o que de fato protege.

Antes de tudo, uma mensagem que os dados sustentam: o risco é maior, mas é conhecido, é identificável e é prevenível. Famílias informadas, escolas atentas e tratamento adequado das condições associadas mudam esse desfecho. Se você está lendo isto porque está preocupado com o seu filho agora, os contatos de ajuda estão no final do texto e o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.

Setembro Amarelo: por que falar de crianças com autismo, TDAH e epilepsia

A campanha Setembro Amarelo nasceu em 2015, criada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo Conselho Federal de Medicina e pela Associação Brasileira de Psiquiatria, em torno do Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, 10 de setembro. Desde 2019, a Lei 13.819 instituiu no Brasil a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio: casos suspeitos ou confirmados passaram a ser de notificação compulsória, inclusive pelas escolas, que devem comunicar o Conselho Tutelar, e a prevenção passou a ser diretriz para os serviços de saúde e de educação.

O tema não é abstrato para as famílias brasileiras. Um estudo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria [1], analisando os registros nacionais de mortalidade entre 2000 e 2015, identificou 11.947 mortes por suicídio de adolescentes no período, com tendência de crescimento ao longo dos anos. E dentro desse cenário geral, crianças e adolescentes com transtornos do neurodesenvolvimento carregam um risco consistentemente maior, documentado em coortes de milhões de pessoas.

Falar disso não aumenta o risco. Silenciar, sim. Uma revisão publicada na Psychological Medicine [11], reunindo os estudos que testaram diretamente essa pergunta, não encontrou nenhuma evidência de que perguntar sobre suicídio induza ideação; ao contrário, em vários estudos a pergunta reduziu o sofrimento e aumentou a busca por ajuda. Perguntar diretamente sobre pensamentos de morte não “coloca a ideia na cabeça” de ninguém, e abre a porta para que a criança conte o que está sentindo.

O que os grandes estudos mostram sobre o autismo

O estudo mais robusto sobre o tema foi publicado em 2021 no JAMA Network Open [2]. Pesquisadores dinamarqueses acompanharam mais de 6,5 milhões de pessoas com 10 anos ou mais, entre 1995 e 2016, incluindo 35.020 com diagnóstico de TEA. As pessoas autistas tiveram taxas de tentativa de suicídio e de morte por suicídio mais de três vezes maiores do que o restante da população, após ajuste para sexo, idade e período. O risco foi ainda maior em mulheres autistas e em pessoas com diagnóstico psiquiátrico associado, como depressão e ansiedade.

Uma coorte sueca publicada no British Journal of Psychiatry [3], com 27.122 pessoas autistas acompanhadas ao longo de décadas, encontrou que, entre pessoas autistas sem deficiência intelectual, o risco de morrer por suicídio foi 9,4 vezes maior do que na população geral, a maior elevação de risco entre todas as causas de morte analisadas nesse grupo. O dado derruba uma suposição comum: o risco não está concentrado nos casos mais graves. Está concentrado justamente em quem tem autismo com fala fluente e inteligência preservada, o perfil que mais passa despercebido na escola e nas consultas.

Em crianças e adolescentes especificamente, uma metanálise publicada em 2022 na Clinical Psychology Review [4], reunindo estudos de vários países sobre jovens autistas com menos de 25 anos, estimou que 25% relatam pensamentos suicidas e 8% já fizeram ao menos uma tentativa. Dois achados dessa metanálise são particularmente importantes para os pais. Primeiro: os jovens autistas relatam muito mais ideação suicida do que seus pais percebem, ou seja, os pais tendem a subestimar o que o filho está vivendo. Segundo: entre os fatores de risco identificados, o bullying apareceu de forma consistente, enquanto a resiliência e o suporte adequado apareceram como fatores de proteção.

TDAH: o risco que a impulsividade esconde

O TDAH costuma ser visto como um problema de atenção e desempenho escolar. Os dados sobre suicídio mostram outra dimensão. Uma metanálise publicada na Neuroscience and Biobehavioral Reviews [5], reunindo 57 estudos, encontrou associação significativa entre TDAH e todo o espectro de comportamentos suicidas: ideação (razão de chances 3,5), tentativas (2,4), planejamento (4,5) e morte por suicídio (6,7). A impulsividade, marca central do TDAH, é parte da explicação: ela encurta a distância entre um pensamento e um ato.

O estudo longitudinal mais importante sobre meninas com TDAH, conduzido na Universidade da Califórnia em Berkeley e publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology [6], acompanhou 228 meninas desde os 6 a 12 anos até o início da vida adulta. Entre as que tinham TDAH do tipo combinado (desatenção com hiperatividade e impulsividade), 22% haviam feito ao menos uma tentativa de suicídio aos 10 anos de seguimento, contra 6% do grupo controle. A autolesão não suicida também foi duas a três vezes mais frequente. Isso reforça um ponto que este blog já discutiu: meninas com TDAH são diagnosticadas tarde, e o custo desse atraso não é só acadêmico.

Há, porém, uma notícia importante para as famílias que hesitam em tratar. Um estudo de registro publicado no BMJ [7], com 37.936 pessoas com TDAH na Suécia, investigou se a medicação para TDAH aumentava o risco de comportamento suicida, um medo frequente dos pais. O resultado foi o oposto: não houve aumento de risco associado ao tratamento e, nas comparações da mesma pessoa em períodos com e sem medicação, os períodos em uso de estimulante (como o metilfenidato) apresentaram taxa menor de comportamento suicida. Tratar o TDAH é, também, prevenção.

Epilepsia: três vezes mais risco, e não só pela doença

A epilepsia costuma ficar de fora das conversas sobre saúde mental, como se fosse um problema exclusivamente neurológico. Os dados mostram que não é. Um estudo caso-controle de base populacional publicado na Lancet Neurology [8], analisando todas as mortes por suicídio na Dinamarca entre 1980 e 1997, encontrou que pessoas com epilepsia tinham risco 3,2 vezes maior de morrer por suicídio. Mesmo após excluir quem tinha diagnóstico psiquiátrico associado, o risco permanecia quase duas vezes maior, e era mais alto nos primeiros seis meses após o diagnóstico de epilepsia.

Uma metanálise publicada em 2023 na Frontiers in Psychiatry [9] estimou que cerca de 20% das pessoas com epilepsia apresentam ideação suicida e 6% já tentaram, com risco maior na epilepsia do lobo temporal e nas formas resistentes a medicamentos. Em crianças e adolescentes, somam-se fatores próprios: o estigma na escola, a imprevisibilidade das crises, a restrição de atividades, os efeitos de alguns anticonvulsivantes sobre o humor e a depressão, que é a comorbidade psiquiátrica mais frequente na epilepsia e a mais subdiagnosticada.

Por que o risco é maior: o que está por trás dos números

Nenhuma dessas condições causa, por si só, o desejo de morrer. O que os estudos apontam é um conjunto de fatores que se acumulam sobre a criança e que, na maioria dos casos, são modificáveis:

Depressão e ansiedade não diagnosticadas. São as comorbidades mais frequentes nos três grupos, e nos três grupos costumam ser atribuídas à condição de base (“é do autismo”, “é do TDAH”) em vez de tratadas como o que são. Na coorte dinamarquesa de autismo, a presença de comorbidade psiquiátrica foi o principal fator que elevou o risco.

Bullying e exclusão. Crianças com autismo, TDAH e epilepsia estão entre as mais vitimadas na escola. A metanálise de jovens autistas identificou o bullying como fator de risco consistente para ideação suicida.

Camuflagem. Um estudo publicado na Molecular Autism [10], com 164 adultos autistas, identificou que a camuflagem, o esforço contínuo de esconder características autistas para “se encaixar”, foi um marcador de risco de suicídio mesmo após considerar depressão e ansiedade. O mesmo estudo apontou as necessidades de suporte não atendidas como outro marcador central. O estudo foi feito com adultos, mas a camuflagem começa na infância e na adolescência, é mais comum em meninas e em pessoas com diagnóstico tardio, e exaure: quem camufla o dia inteiro na escola chega em casa sem reserva emocional.

Impulsividade. No TDAH, encurta o intervalo entre pensamento e ato. Na epilepsia, alguns medicamentos e a própria disfunção de circuitos frontais podem contribuir.

Diagnóstico tardio e falta de suporte. Anos de dificuldade sem nome, sem explicação e sem ajuda produzem uma narrativa interna de “eu sou o problema”. A autoestima corroída é um terreno conhecido para a desesperança.

Comunicação limitada. Crianças que não conseguem verbalizar sofrimento emocional o expressam de outras formas: retraimento, agressividade, autolesão, regressão de habilidades. Esses sinais são frequentemente lidos como “comportamento”, não como dor.

O que os pais podem observar

Os sinais de alerta em crianças e adolescentes com transtornos do neurodesenvolvimento incluem os mesmos das demais crianças, e alguns específicos:

  • Falar sobre morte, sobre “sumir”, sobre “não aguentar mais” ou sobre ser “um peso”, mesmo que em tom aparentemente casual ou repetitivo
  • Em crianças autistas, interesse novo e intenso pelo tema da morte, ou frases literais como “eu queria não existir”, que não devem ser interpretadas como “jeito de falar”
  • Marcas de autolesão: cortes, arranhões, queimaduras, geralmente em braços, coxas ou abdome, frequentemente escondidas sob roupas longas
  • Em crianças com pouca ou nenhuma fala, aumento súbito de comportamentos autolesivos (bater a cabeça, morder-se) sem gatilho sensorial identificável
  • Retraimento: abandono de atividades e interesses antes preservados, isolamento mesmo dos poucos vínculos que tinha
  • Mudança marcante de sono, apetite ou desempenho escolar
  • Recusa escolar persistente, especialmente se houver relato ou suspeita de bullying
  • Doar objetos queridos, despedir-se de forma inusitada
  • Melhora súbita e inexplicada após período de sofrimento intenso, que pode indicar decisão tomada e não alívio real

Um lembrete que vem diretamente da metanálise de jovens autistas: pergunte à criança, não apenas observe. Os pais subestimam sistematicamente a ideação suicida dos filhos. Perguntar de forma direta e calma (“Você tem pensado em morrer? Em se machucar?”) é recomendado por todas as diretrizes de prevenção e não aumenta o risco.

O que protege

Os mesmos estudos que medem o risco identificam o que o reduz:

  • Diagnosticar e tratar a depressão e a ansiedade como condições próprias, com psicoterapia adaptada e, quando indicado, medicação, em vez de atribuir tudo à condição de base
  • Tratar o TDAH, incluindo medicação quando indicada: os dados do BMJ mostram efeito protetor, não risco
  • Controlar a epilepsia e vigiar o humor, com atenção especial aos seis meses após o diagnóstico e aos efeitos psiquiátricos de anticonvulsivantes
  • Escola sem bullying, com adulto de referência a quem a criança possa recorrer e protocolo claro de resposta
  • Reduzir a necessidade de camuflagem: ambientes em que a criança pode ser autista sem punição social reduzem a exaustão e a sensação de não pertencer
  • Conexão familiar: tempo de qualidade, escuta sem julgamento, previsibilidade. O vínculo com ao menos um adulto que a criança sente que a compreende é um dos fatores protetores mais consistentes na literatura
  • Guarda segura: medicamentos (inclusive os da própria criança) trancados e administrados pelo adulto; objetos perigosos fora de alcance. Reduzir o acesso a meios é uma das medidas de prevenção com maior evidência
  • Cuidar de quem cuida: pais exaustos e deprimidos têm menos capacidade de perceber sinais e de sustentar rotinas. O suporte à saúde mental dos cuidadores é parte da prevenção

Como conversar com a criança

Escolha um momento calmo, sem plateia, sem pressa. Comece pelo que você observou, sem interpretação: “Percebi que você tem ficado mais quieto e parou de jogar com os amigos. Quero entender como você está.” Pergunte diretamente sobre pensamentos de morte se houver qualquer sinal. Se a resposta for sim, não demonstre pânico, não faça promessas de segredo, não minimize (“isso é bobagem”) e não tente resolver na hora. Agradeça por ela ter contado, diga que vai ajudá-la a ficar segura e procure ajuda profissional no mesmo dia.

Para crianças autistas, adapte a linguagem: seja literal, evite metáforas, ofereça opções de resposta (sim, não, não sei) e aceite respostas escritas, desenhadas ou por comunicação alternativa. Para crianças com TDAH, conversas curtas e frequentes funcionam melhor do que uma conversa longa.

Onde buscar ajuda agora

  • CVV (Centro de Valorização da Vida): telefone 188, gratuito, 24 horas, ou chat em cvv.com.br. Atende também pais e familiares que precisam conversar
  • Risco imediato (a criança tem um plano, os meios ou já se machucou): SAMU 192 ou a emergência mais próxima. Não deixe a criança sozinha
  • CAPS infantojuvenil (CAPSi): atendimento gratuito pelo SUS, sem necessidade de encaminhamento. A UBS do bairro orienta qual CAPS atende a sua região
  • Pediatra ou médico que acompanha a criança: deve ser informado e pode encaminhar para psiquiatria da infância e adolescência
  • Escola: pela Lei 13.819/2019, a escola tem dever de notificar casos suspeitos e é parte da rede de prevenção. Informe a coordenação para que a criança tenha acompanhamento também no ambiente escolar
  • Plano de saúde: desde 2022, a ANS eliminou o limite de sessões de psicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e fisioterapia para qualquer diagnóstico (RN 541/2022). Para TEA, a RN 539/2022 garante ainda cobertura de qualquer método ou técnica indicada pelo médico. Consulta com psiquiatra da infância e adolescência tem cobertura obrigatória

Setembro Amarelo termina no dia 30. O risco das crianças com autismo, TDAH e epilepsia não. A prevenção que funciona é a que acontece nos outros onze meses: diagnóstico sem demora, tratamento das comorbidades, escola que protege e uma família que pergunta, escuta e acredita.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra. Em situação de risco imediato à vida, procure o SAMU (192) ou o serviço de emergência mais próximo.

Referências bibliográficas

[1] Cicogna JIR, Hillesheim D, Hallal ALLC. Mortalidade por suicídio de adolescentes no Brasil: tendência temporal de crescimento entre 2000 e 2015. Jornal Brasileiro de Psiquiatria. 2019;68(1):1-7. doi: 10.1590/0047-2085000000345.

[2] Kõlves K, Fitzgerald C, Nordentoft M, Wood SJ, Erlangsen A. Assessment of suicidal behaviors among individuals with autism spectrum disorder in Denmark. JAMA Network Open. 2021;4(1):e2033565. doi: 10.1001/jamanetworkopen.2020.33565.

[3] Hirvikoski T, Mittendorfer-Rutz E, Boman M, Larsson H, Lichtenstein P, Bölte S. Premature mortality in autism spectrum disorder. British Journal of Psychiatry. 2016;208(3):232-238. doi: 10.1192/bjp.bp.114.192880.

[4] O’Halloran L, Coey P, Wilson C. Suicidality in autistic youth: a systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review. 2022;93:102144. doi: 10.1016/j.cpr.2022.102144.

[5] Septier M, Stordeur C, Zhang J, Delorme R, Cortese S. Association between suicidal spectrum behaviors and attention-deficit/hyperactivity disorder: a systematic review and meta-analysis. Neuroscience and Biobehavioral Reviews. 2019;103:109-118. doi: 10.1016/j.neubiorev.2019.05.022.

[6] Hinshaw SP, Owens EB, Zalecki C, et al. Prospective follow-up of girls with attention-deficit/hyperactivity disorder into early adulthood: continuing impairment includes elevated risk for suicide attempts and self-injury. Journal of Consulting and Clinical Psychology. 2012;80(6):1041-1051. doi: 10.1037/a0029451.

[7] Chen Q, Sjölander A, Runeson B, D’Onofrio BM, Lichtenstein P, Larsson H. Drug treatment for attention-deficit/hyperactivity disorder and suicidal behaviour: register based study. BMJ. 2014;348:g3769. doi: 10.1136/bmj.g3769.

[8] Christensen J, Vestergaard M, Mortensen PB, Sidenius P, Agerbo E. Epilepsy and risk of suicide: a population-based case-control study. Lancet Neurology. 2007;6(8):693-698. doi: 10.1016/S1474-4422(07)70175-8.

[9] Wang Y, et al. Suicidality and epilepsy: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Psychiatry. 2023;14:1097516. doi: 10.3389/fpsyt.2023.1097516.

[10] Cassidy S, Bradley L, Shaw R, Baron-Cohen S. Risk markers for suicidality in autistic adults. Molecular Autism. 2018;9:42. doi: 10.1186/s13229-018-0226-4.

[11] Dazzi T, Gribble R, Wessely S, Fear NT. Does asking about suicide and related behaviours induce suicidal ideation? What is the evidence? Psychological Medicine. 2014;44(16):3361-3363. doi: 10.1017/S0033291714001299.

Legislação e recursos citados: Lei 13.819/2019 (Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio); RN ANS 539/2022 e RN ANS 541/2022; CVV, telefone 188 e cvv.com.br.