Toda família já viveu pelo menos uma fase difícil com sono infantil. A criança que não quer dormir, que acorda no meio da noite, que tem pesadelos, que ronca, que resiste à rotina de soneca. Muito disso é esperado em determinadas fases do desenvolvimento. Mas há casos em que o problema de sono é sinal de algo que merece atenção clínica. Distinguir os dois é fundamental.
Identificar quando um distúrbio do sono infantil precisa de investigação, e não apenas ajustes de rotina, faz diferença no desenvolvimento a longo prazo.
Distúrbio do sono infantil: o que o sono faz pelo cérebro em desenvolvimento
Dormir não é “pausa” para o cérebro, é quando grande parte do trabalho acontece. Durante o sono, especialmente nas fases de sono profundo e REM, o cérebro consolida memórias, processa emoções, elimina resíduos metabólicos acumulados durante o dia e libera hormônios essenciais para o crescimento.
Um estudo longitudinal publicado em 2024 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry [1], com 963 adolescentes acompanhados pelo estudo ABCD (Adolescent Brain Cognitive Development), mostrou que atrasos no horário de dormir, mesmo sem redução significativa no total de horas de sono, estavam associados a comportamentos impulsivos, pior desempenho acadêmico e alterações estruturais e funcionais no cérebro. O efeito dos atrasos no horário de dormir sobre o comportamento foi maior do que o efeito da redução da duração do sono.
Em outras palavras: quando um adolescente dorme tarde (mesmo dormindo horas suficientes), o impacto no comportamento e no desenvolvimento cerebral é real e mensurável. Em crianças menores, os efeitos são igualmente, ou ainda mais, relevantes.
Quanto sono uma criança precisa
A Academia Americana de Pediatria estabelece as seguintes recomendações de sono total por 24 horas:
- 4-12 meses: 12-16 horas (incluindo sonecas)
- 1-2 anos: 11-14 horas (incluindo sonecas)
- 3-5 anos: 10-13 horas (incluindo sonecas)
- 6-12 anos: 9-12 horas
- 13-18 anos: 8-10 horas
Essas são médias populacionais, há variação individual. O que importa observar é o padrão da criança ao longo do tempo, não uma noite isolada.
Problemas de sono comuns em crianças e quando passam
Resistência ao sono (recusar dormir, pedir água, pedir mais histórias, chamar pelos pais) é muito comum entre 2 e 6 anos e geralmente responde a rotinas consistentes, horário fixo, sequência previsível de atividades antes de dormir, ambiente calmo.
Despertares noturnos são normais em bebês e podem persistir em crianças pequenas. A maioria aprende a se auto-regular com o tempo e com a consistência da resposta dos cuidadores.
Pesadelos são comuns entre 3 e 6 anos e não indicam problemas de saúde por si só.
Terror noturno (acordar abruptamente em choro intenso, sem reconhecer os pais, sem memória no dia seguinte) ocorre nas primeiras horas da noite, durante o sono profundo. Assusta os pais, mas é benigno na maioria dos casos e tende a desaparecer com a idade.
Quando o problema de sono pede investigação
Há situações em que o problema de sono vai além do esperado e merece avaliação médica:
Ronco habitual com pausas respiratórias. Roncar todas as noites, com episódios em que a criança parece “parar de respirar” e depois retoma com engasgo, pode indicar apneia obstrutiva do sono, condição que interrompe o sono continuamente e tem impacto significativo no comportamento, na atenção e no crescimento.
Dificuldade de adormecer persistente em crianças com neurodesenvolvimento diferente. Crianças com TEA, TDAH e outras condições neurológicas têm taxas muito mais elevadas de dificuldades de sono. Uma meta-análise publicada em 2025 no Sleep Medicine Reviews [2], com 21 estudos sobre melatonina em crianças com condições neuropsiquiátricas, confirmou que problemas de sono são extremamente prevalentes nessa população, e que intervenções como a melatonina (na dose de 2-4mg, administrada 3 horas antes do horário de dormir) reduzem significativamente a latência do sono e melhoram a eficiência do sono.
Privação crônica de sono com impacto diurno. Quando a criança está consistentemente sonolenta durante o dia, com irritabilidade marcada, dificuldade de atenção ou alterações de comportamento que não têm outra explicação, o sono merece ser investigado.
Sonambulismo frequente. Episódios esporádicos são comuns e benignos. Episódios muito frequentes ou com comportamentos que colocam a criança em risco merecem avaliação.
Síndrome de pernas inquietas. Sensação de desconforto nas pernas ao deitar, piora no repouso, alívio com movimento, pode afetar crianças, é subdiagnosticada e interfere muito com o adormecer.
O que ajuda na higiene do sono
Antes de qualquer intervenção médica, medidas de higiene do sono são o primeiro passo:
- Horário consistente para dormir e acordar, todos os dias (inclusive fins de semana)
- Rotina pré-sono previsível: banho, história, apagar a luz, sempre na mesma ordem
- Ambiente escuro, silencioso e com temperatura agradável
- Telas apagadas pelo menos 1 hora antes de dormir
- Sem atividades estimulantes nas horas finais do dia
Quando essas medidas não são suficientes, especialmente em crianças com neurodesenvolvimento diferente, a avaliação pediátrica pode incluir polissonografia, avaliação de comportamento do sono e, quando indicado, intervenções específicas.
Leia também:
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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Zhang R, Schwandt ML, Vines L, Volkow ND. Changes in rest-activity rhythms in adolescents as they age: associations with brain and behavioral changes in the ABCD study. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2024;64(9):1056-1067. doi: 10.1016/j.jaac.2024.11.005.
[2] Bruno S, Cenerini G, Lo Giudice L, et al. Optimizing timing and dose of exogenous melatonin administration in neuropsychiatric pediatric populations: a meta-analysis on sleep outcomes. Sleep Medicine Reviews. 2025;84:102158. doi: 10.1016/j.smrv.2025.102158.
