Quando uma criança tem uma convulsão, o que os adultos ao redor fazem nos primeiros minutos importa tanto quanto qualquer coisa que aconteça depois. E é exatamente nesses minutos que os mitos convulsão causam mais dano: condutas ensinadas de geração em geração, compartilhadas em grupos de família, reforçadas por pessoas bem-intencionadas, que podem machucar quem está tendo a crise.
Alguns desses mitos são apenas inúteis. Outros são ativamente perigosos. Saber a diferença pode proteger uma criança.
Mitos convulsão: o mais perigoso de todos
“Coloque algo na boca para ela não morder a língua.” Esse é, de longe, o mito mais difundido e mais perigoso sobre o que fazer durante uma convulsão. Uma metanálise publicada em 2026 no BMC Public Health [1], reunindo estudos sobre conhecimento e atitudes em relação a crises epilépticas em países de língua árabe, encontrou que 38,6% das pessoas ainda acreditam que colocar objetos na boca da pessoa em crise é a conduta correta.
O problema é que isso está errado em todas as frentes:
- Colheres, dedos, panos ou qualquer objeto introduzido na boca de alguém em convulsão podem quebrar dentes, lacerar a gengiva, obstruir a via aérea e provocar sufocamento
- A musculatura da mandíbula durante uma convulsão tônico-clônica está em contração involuntária intensa: tentar abrir a boca à força pode fraturar a mandíbula e machucar quem tenta ajudar
- A pessoa em convulsão não vai engolir a língua. Isso é anatomicamente impossível: a língua está fixada ao assoalho da boca por um freio. O que pode acontecer é obstrução parcial das vias aéreas pela queda da língua para trás, e isso se resolve virando a pessoa de lado, não colocando nada na boca
“É preciso segurar a pessoa para ela não se machucar”
Outro mito persistente: conter o corpo da pessoa durante a convulsão para impedir que ela se lesione. A intenção é boa. A conduta é errada e pode machucar.
Os movimentos da convulsão são involuntários e gerados pelo sistema nervoso central. Tentar contê-los pela força não interrompe a crise: apenas adiciona força contrária aos movimentos, aumentando o risco de luxações, fraturas e lesões musculares tanto na pessoa em crise quanto em quem tenta ajudar.
O que se deve fazer é remover objetos duros e cortantes do caminho, colocar algo macio sob a cabeça se possível, e deixar os movimentos ocorrerem sem contenção.
“A pessoa pode engolir a língua”
Esse mito já foi explicado acima, mas merece reforço porque é o que justifica o mito do objeto na boca. A língua não pode ser engolida. O risco real durante uma convulsão é a obstrução mecânica das vias aéreas por secreções ou pela posição da cabeça, e isso é prevenido virando a pessoa em decúbito lateral (posição de recuperação) assim que os movimentos diminuírem, nunca durante os movimentos intensos.
“Jogar água no rosto interrompe a convulsão”
Água no rosto, tapas, beliscões, amoníaco sob o nariz: nenhuma dessas condutas interrompe uma convulsão. A crise tem duração determinada pela atividade elétrica cerebral, não por estímulos externos. Essas tentativas não ajudam e podem criar situação de risco adicional, especialmente a água, que pode ser aspirada se a pessoa não tiver controle dos reflexos de deglutição.
“Convulsão é sempre epilepsia”
Convulsão e epilepsia não são sinônimos. Convulsão é um evento, uma descarga elétrica anormal no cérebro que se manifesta clinicamente. Epilepsia é uma condição crônica definida por convulsões recorrentes sem causa aguda identificável.
Muitas convulsões em crianças têm causa identificável e tratável: febre alta (convulsão febril), alterações metabólicas, hipoglicemia, intoxicação, trauma craniano. Uma única convulsão sem recorrência, especialmente em criança com febre, não define epilepsia.
Uma revisão sistemática publicada em setembro de 2025 na Cureus [2], examinando o impacto de mitos e crenças culturais sobre epilepsia nos desfechos de saúde em países de baixa e média renda, mostrou que a confusão entre convulsão e epilepsia contribui para estigma, atraso no diagnóstico e isolamento social de crianças que tiveram episódios convulsivos isolados, muitas vezes sem qualquer indicação de epilepsia.
“Convulsão é contagiosa”
Esse mito, embora pareça absurdo para quem tem acesso a informação médica básica, persiste em muitas comunidades e tem consequências reais. Crianças com epilepsia são afastadas de escolas, excluídas de atividades coletivas e discriminadas com base na crença de que a condição pode se transmitir por contato ou por presenciar uma crise.
Epilepsia não é contagiosa. Não se transmite por toque, por contato com saliva, por estar presente durante uma crise ou por qualquer outra forma de exposição. Crianças com epilepsia têm os mesmos direitos de convivência, escolarização e participação social que qualquer outra criança.
O que realmente fazer durante uma convulsão
As recomendações baseadas em evidências para primeiros socorros em convulsão são simples e podem ser memorizadas:
- Mantenha a calma. A maioria das convulsões cessa espontaneamente em menos de 2 a 3 minutos
- Cronometrar. Observe o horário de início. A duração importa para a decisão de chamar socorro
- Proteger a cabeça. Coloque algo macio (dobra de roupa, travesseiro) sob a cabeça se disponível
- Afastar objetos perigosos. Mova móveis, objetos cortantes ou duros para longe
- Não conter os movimentos. Não segure os braços, pernas ou tronco
- Não colocar nada na boca. Nada. Nenhum objeto, nenhum dedo, nenhum pano
- Virar de lado assim que os movimentos diminuírem, para evitar aspiração de secreções
- Permanecer ao lado até a recuperação completa da consciência
Um estudo publicado em 2025 no Epilepsia [3], avaliando o conhecimento de pais sobre a primeira crise convulsiva em filhos, mostrou que, apesar de 74% dos pais reconhecerem os sintomas de uma convulsão, nenhum dos respondentes demonstrou conhecimento adequado de primeiros socorros específicos para convulsão. O dado revela o tamanho do espaço entre reconhecer que algo está acontecendo e saber o que fazer.
Quando chamar o SAMU (192)
A maioria das convulsões não exige resgate de emergência. Mas algumas situações requerem acionamento imediato:
- Convulsão com duração superior a 5 minutos
- A pessoa não recupera a consciência após o fim dos movimentos
- Ocorrência de duas ou mais convulsões seguidas sem recuperação entre elas
- Primeira convulsão da vida da criança (merece avaliação médica, mesmo que ceda)
- Convulsão em criança com febre muito alta ou doença sistêmica grave
- Convulsão na água
- Lesão durante a crise (queda, trauma craniano)
- Dificuldade respiratória persistente após o fim da crise
Convulsão com duração acima de 5 minutos é considerada estado de mal epiléptico e requer intervenção médica urgente. Nesse caso, se a criança tiver medicação de resgate prescrita (midazolam intranasal ou bucal, por exemplo), ela deve ser administrada conforme orientação médica prévia enquanto o SAMU é acionado.
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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Al-Husban N, Qudah M, Alkhateeb A, et al. Attitudes and misconceptions surrounding epilepsy and first aid of seizures in the Eastern Mediterranean Region: a systematic review and meta-analysis. BMC Public Health. 2026. doi: 10.1186/s12889-025-25510-1.
[2] Chandrasekaran M, Prasad B, Lakshmanan S, et al. Epilepsy-related misconceptions, cultural beliefs, and their impact on health outcomes: a systematic review. Cureus. 2025;17(9):e91498. doi: 10.7759/cureus.91498.
[3] Aloraini SM, Alshehri AM, Alghamdi RA, et al. Parental knowledge and perceptions of the first episode of seizure in children: a single-center cross-sectional study. Epilepsia Open. 2025. doi: 10.1177/30502225251374941.
