Depressão infantil: os sinais que não parecem tristeza

Ele não chora pelos cantos. Mas explode por qualquer coisa, diz que nada tem graça, larga o futebol que adorava, reclama de dor de barriga quase todo dia antes da escola e as notas começaram a cair. A família pensa em fase, em preguiça, em “pré-adolescência”. Às vezes é. Mas a depressão infantil existe, e em muitas crianças ela não aparece como tristeza, e sim como irritação, cansaço, dores no corpo e perda do prazer de brincar. É por isso que ela passa despercebida com tanta frequência.

Este guia explica quanto a depressão é comum na infância e na adolescência, como ela se manifesta em cada idade, como diferenciá-la da tristeza comum, o que aumenta o risco, por que não vale esperar passar, como é o tratamento (com o que funciona e com os limites do que funciona) e quando buscar ajuda com urgência.

Depressão infantil: existe mesmo?

Existe, embora seja menos comum na infância do que na adolescência. A maior metanálise mundial sobre saúde mental de crianças e adolescentes, publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry [1], estimou que 2,6% das crianças e adolescentes têm um transtorno depressivo.

No Brasil, a coorte de nascimentos de Pelotas avaliou 3.585 crianças aos 6 anos de idade com entrevista diagnóstica, e o resultado foi publicado na Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology [2]. A depressão foi encontrada em 1,3% delas, e a ansiedade, em 8,8%. Os transtornos foram mais frequentes nas crianças de famílias em desvantagem socioeconômica. Ou seja: mesmo antes da alfabetização, a depressão é rara, mas real.

Com a puberdade, o quadro muda. Uma revisão publicada na The Lancet [3] mostra que a incidência de depressão sobe de forma acentuada depois da puberdade, principalmente nas meninas, e que, no fim da adolescência, mais de 4% dos jovens têm depressão ao longo de um ano.

Os sinais que não parecem tristeza

Os manuais diagnósticos reconhecem que, em crianças e adolescentes, o humor deprimido pode aparecer como irritabilidade em vez de tristeza. Uma revisão brasileira sobre o quadro clínico da depressão na infância, publicada no Jornal de Pediatria [4], descreve como sintomas muito comuns nas crianças as queixas no corpo, a irritabilidade e o retraimento social. Os sinais variam com a idade:

Na pré-escola:

  • Dores frequentes, principalmente de cabeça e de barriga, cansaço e tontura
  • Perda do prazer de brincar ou de ir à escolinha
  • Choro fácil, apatia ou irritação constante
  • Regressões: voltar a fazer xixi na cama, a pedir colo, a falar como bebê
  • Alterações de sono e de apetite

Na idade escolar:

  • Tristeza, irritabilidade ou tédio relatados pela própria criança (“nada tem graça”, “eu sou burro”, “ninguém gosta de mim”)
  • Queda do desempenho escolar, que pode chegar à recusa em ir à escola
  • Afastamento dos amigos e das atividades de que gostava
  • Crises de raiva desproporcionais
  • Autocrítica excessiva e culpa

Na adolescência:

  • Irritabilidade, isolamento no quarto, ruptura com amigos
  • Muito sono ou insônia, cansaço constante
  • Perda de interesse em tudo, sensação de vazio
  • Queda brusca nas notas, faltas
  • Uso de álcool ou outras drogas
  • Falas sobre não ter futuro, ser um peso ou querer sumir

Tristeza normal, birra ou depressão?

Toda criança fica triste, frustrada e irritada às vezes. O que sugere depressão é o conjunto de alguns fatores:

  • Duração: os sintomas estão presentes na maior parte dos dias, por pelo menos duas semanas
  • Abrangência: aparecem em casa, na escola e com os amigos, não só numa situação
  • Perda de prazer: a criança deixa de gostar até do que sempre gostou
  • Mudança: ela não está sendo “ela mesma”; os pais sentem que algo mudou
  • Prejuízo: o sofrimento atrapalha a escola, o sono, as amizades e a convivência familiar

A birra costuma ter começo, meio e fim, e entre as crises a criança volta a brincar e a se divertir. A tristeza depois de uma perda costuma melhorar aos poucos. Na depressão, o sofrimento se instala e não passa.

Por que acontece: os fatores de risco

Não há uma causa única. A revisão da The Lancet [3] aponta que os fatores de risco mais fortes para depressão na adolescência são a história de depressão na família e a exposição a estresse psicossocial, como perdas, conflitos, violência, rejeição e bullying.

Um estudo brasileiro feito num bairro pobre de Recife, publicado na Child Abuse & Neglect [5], acompanhou 630 mães e filhos. Segundo o relato das mães, 15,7% das crianças em idade escolar tinham sintomas depressivos. A exposição, no primeiro ano de vida, ao mesmo tempo à violência entre os pais e a um transtorno mental da mãe foi a combinação mais fortemente associada à depressão na infância.

Isso não significa culpa. Significa que a saúde mental da família inteira importa. Cuidar da depressão de um pai ou de uma mãe, sair de uma situação de violência e reduzir o estresse em casa também são formas de proteger a criança. Crianças com doenças crônicas, autismo, TDAH ou epilepsia também merecem atenção redobrada, porque nelas a depressão pode se manifestar de forma diferente e ser confundida com a condição de base.

Por que não esperar passar

A depressão que começa cedo tende a voltar. Uma revisão sistemática publicada na Depression and Anxiety [6] reuniu 18 estudos que acompanharam adolescentes até a vida adulta. Em 17 deles, a depressão na adolescência aumentou o risco de depressão no adulto. Na análise conjunta, adolescentes com depressão tiveram quase três vezes mais chance de ter depressão na vida adulta.

Além disso, enquanto a depressão não é tratada, a criança perde aprendizado, amizades e confiança em si mesma, em fases da vida que não voltam. Reconhecer cedo e tratar não é exagero: é evitar que um episódio vire uma história.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico é clínico. Não existe exame de sangue ou de imagem que mostre depressão. A avaliação envolve conversar com a criança, separadamente com os pais, e muitas vezes ouvir a escola. O pediatra é a porta de entrada e também investiga causas físicas que podem imitar ou piorar a depressão, como alterações da tireoide, anemia, problemas de sono e efeitos de medicamentos. Conforme a gravidade, a criança é encaminhada ao psicólogo e ao psiquiatra da infância e da adolescência.

Questionários respondidos pela criança, pelos pais e pelos professores ajudam no rastreamento e no acompanhamento, mas não substituem a avaliação clínica.

Tratamento: o que a psicoterapia oferece

A psicoterapia é a base do tratamento, especialmente nos casos leves e moderados. Mas a evidência precisa ser apresentada com honestidade. Uma atualização da evidência sobre tratamentos psicossociais, publicada no Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology [7], concluiu que, para adolescentes, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a psicoterapia interpessoal têm eficácia bem estabelecida. Para crianças menores, porém, a evidência é bem mais fraca: a TCC é considerada possivelmente eficaz, com resultados variados entre os estudos, e nenhum tratamento alcançou o nível de eficácia bem estabelecida.

Uma metanálise de 13 anos de ensaios clínicos, publicada no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry [8], mostrou que o efeito da psicoterapia na depressão de crianças e adolescentes é modesto, menor ainda no acompanhamento de longo prazo, e não melhorou ao longo dos anos. A terapia interpessoal teve efeitos maiores que a TCC. Isso não quer dizer que a terapia não valha a pena. Quer dizer que ela funciona melhor quando bem indicada, conduzida por profissional preparado, com a família envolvida e com metas claras, e que nem toda criança vai responder rápido.

Na prática, um bom tratamento costuma incluir: psicoterapia para a criança, orientação aos pais, ajustes na escola, atenção ao sono, à atividade física e à rotina, e tratamento dos problemas da família que estejam contribuindo para o quadro.

Tratamento: e os antidepressivos?

Os antidepressivos têm lugar no tratamento da depressão moderada a grave, principalmente em adolescentes, mas com benefício menor do que em adultos. A maior metanálise em rede sobre o tema, publicada na The Lancet [9], reuniu 34 ensaios clínicos com 5.260 crianças e adolescentes e 14 antidepressivos. Apenas a fluoxetina foi significativamente melhor que o placebo. Os autores concluíram que esses medicamentos não parecem oferecer uma vantagem clara para crianças e adolescentes, que a qualidade da evidência era muito baixa na maioria das comparações e que a fluoxetina é provavelmente a melhor opção quando o tratamento medicamentoso está indicado.

O grande ensaio clínico TADS, publicado na JAMA [10], comparou em 439 adolescentes de 12 a 17 anos a fluoxetina, a TCC, a combinação das duas e o placebo. As taxas de resposta foram de 71% com a combinação, 60,6% com a fluoxetina sozinha, 43,2% com a TCC sozinha e 34,8% com o placebo. Nesse estudo, na fase inicial, a TCC sozinha não se distanciou claramente do placebo, e a combinação ofereceu o melhor equilíbrio entre benefício e risco.

Existe um alerta oficial da agência americana de medicamentos (FDA) sobre o uso de antidepressivos em crianças e adolescentes, por causa de um pequeno aumento de pensamentos e tentativas de suicídio no início do tratamento. Uma metanálise publicada na JAMA [11] quantificou esse risco: considerando todas as indicações, o aumento foi de 0,7 ponto percentual, ou seja, para cada 143 jovens tratados, um a mais apresentou esse tipo de evento. Nos estudos de depressão, a diferença não chegou a ser estatisticamente significativa, e não houve nenhuma morte por suicídio nos ensaios. Em crianças com menos de 12 anos, só a fluoxetina mostrou benefício sobre o placebo.

Em resumo: o antidepressivo não é o vilão que se pinta nem a solução que se espera. Quando indicado pelo médico, exige acompanhamento próximo, principalmente nas primeiras semanas, com a família atenta a qualquer piora, agitação ou fala sobre morte. A decisão é sempre individual e nunca deve ser tomada sem avaliação médica.

Sinais de risco: quando buscar ajuda no mesmo dia

Procure atendimento imediatamente se a criança ou o adolescente:

  • Fala em morrer, em se matar, em sumir ou em ser um peso para a família
  • Apresenta machucados sem explicação ou sinais de autolesão
  • Demonstra desesperança intensa (“nada vai melhorar”)
  • Se despede de pessoas ou dá objetos de valor sem motivo
  • Muda bruscamente de comportamento, com agitação ou calma repentina depois de um período muito difícil

Perguntar diretamente, com calma e acolhimento, se ele pensa em se machucar não coloca a ideia na cabeça de ninguém: abre a porta para a ajuda. O CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188 e pelo chat em cvv.org.br. Em situação de risco imediato, ligue para o SAMU, 192, ou vá ao pronto-socorro.

Como ajudar em casa

  • Escute sem corrigir. “Parece que está muito difícil para você” acolhe mais do que “você tem tudo, não tem motivo para estar triste”
  • Mantenha a rotina: horários de sono, refeições e escola dão estrutura nos dias ruins
  • Proponha atividades pequenas e possíveis: uma caminhada, um jogo, cozinhar junto. Na depressão, a vontade vem depois da ação, não antes
  • Reduza críticas e comparações e valorize o esforço
  • Converse com a escola para ajustar cobranças e combinar como apoiar a criança
  • Observe as telas e o sono: madrugadas no celular pioram o humor
  • Cuide de você: pais esgotados ou deprimidos também precisam de tratamento, e isso ajuda a criança

A depressão infantil tem tratamento, e a maioria das crianças melhora quando é reconhecida e acompanhada. O passo mais importante é o primeiro: perceber que aquela irritação, aquele cansaço ou aquela dor de barriga de todo dia podem estar dizendo alguma coisa.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra. Se você está em sofrimento emocional intenso, procure um profissional de saúde mental ou ligue para o CVV, 188.

Referências bibliográficas

[1] Polanczyk GV, Salum GA, Sugaya LS, et al. Annual research review: a meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 2015;56(3):345-365. doi: 10.1111/jcpp.12381.

[2] Petresco S, Anselmi L, Santos IS, et al. Prevalence and comorbidity of psychiatric disorders among 6-year-old children: 2004 Pelotas Birth Cohort. Social Psychiatry and Psychiatric Epidemiology. 2014;49(6):975-983. doi: 10.1007/s00127-014-0826-z.

[3] Thapar A, Collishaw S, Pine DS, Thapar AK. Depression in adolescence. The Lancet. 2012;379(9820):1056-1067. doi: 10.1016/S0140-6736(11)60871-4.

[4] Bahls SC. Aspectos clínicos da depressão em crianças e adolescentes. Jornal de Pediatria. 2002;78(5):359-366. doi: 10.1590/s0021-75572002000500004.

[5] Silva EP, Emond A, Ludermir AB. Depression in childhood: the role of children’s exposure to intimate partner violence and maternal mental disorders. Child Abuse & Neglect. 2021;122:105305. doi: 10.1016/j.chiabu.2021.105305.

[6] Johnson D, Dupuis G, Piche J, et al. Adult mental health outcomes of adolescent depression: a systematic review. Depression and Anxiety. 2018;35(8):700-716. doi: 10.1002/da.22777.

[7] Weersing VR, Jeffreys M, Do MCT, et al. Evidence base update of psychosocial treatments for child and adolescent depression. Journal of Clinical Child & Adolescent Psychology. 2017;46(1):11-43. doi: 10.1080/15374416.2016.1220310.

[8] Eckshtain D, Kuppens S, Ugueto A, et al. Meta-analysis: 13-year follow-up of psychotherapy effects on youth depression. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2020;59(1):45-63. doi: 10.1016/j.jaac.2019.04.002.

[9] Cipriani A, Zhou X, Del Giovane C, et al. Comparative efficacy and tolerability of antidepressants for major depressive disorder in children and adolescents: a network meta-analysis. The Lancet. 2016;388(10047):881-890. doi: 10.1016/S0140-6736(16)30385-3.

[10] March J, Silva S, Petrycki S, et al. Fluoxetine, cognitive-behavioral therapy, and their combination for adolescents with depression: Treatment for Adolescents With Depression Study (TADS) randomized controlled trial. JAMA. 2004;292(7):807-820. doi: 10.1001/jama.292.7.807.

[11] Bridge JA, Iyengar S, Salary CB, et al. Clinical response and risk for reported suicidal ideation and suicide attempts in pediatric antidepressant treatment: a meta-analysis of randomized controlled trials. JAMA. 2007;297(15):1683-1696. doi: 10.1001/jama.297.15.1683.