É uma das perguntas mais frequentes no consultório: “meu filho anda na ponta dos pés, isso é normal?”. A resposta curta é: na maioria das vezes, sim — principalmente em crianças pequenas que ainda estão aprendendo a andar. Mas existem padrões que merecem atenção, e vale entender a diferença.
Quando uma criança anda na ponta do pé com frequência, entender a causa certa muda completamente a abordagem.
Por que a criança anda na ponta do pé
Andar na ponta dos pés (em inglês, toe walking) é comum em crianças que estão começando a caminhar, geralmente entre 1 e 2 anos, como parte do processo de ajuste do equilíbrio. Na maioria dos casos, esse hábito desaparece sozinho conforme a criança ganha mais controle motor.
Quando o comportamento persiste além dos 3 anos, três grupos de causas merecem ser considerados:
- Hábito comportamental — sem nenhuma causa física ou neurológica, simplesmente um padrão que se manteve.
- Causas sensoriais ou comportamentais — incluindo o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Um estudo americano publicado no Journal of Foot and Ankle Surgery (2025), com ampla amostra pediátrica, identificou marcha em ponta dos pés persistente em 6,3% das crianças com TEA, contra 1,5% das crianças sem TEA [1] — diferença relevante, mas que ainda deixa a grande maioria das crianças com TEA andando normalmente. Um estudo italiano publicado na revista Medicina (2025), com amostra pediátrica transversal, confirma essa maior prevalência do padrão em crianças com TEA e associa o achado a hipo ou hipersensibilidade tátil na planta do pé [2].
- Causas físicas ou neurológicas — como encurtamento do tendão de Aquiles, paralisia cerebral leve ou outras condições neuromusculares.
É importante deixar claro: andar na ponta dos pés, isoladamente, não significa que a criança é autista ou tem qualquer condição neurológica. Mesmo nos estudos citados, a maioria das crianças com TEA não apresenta esse padrão de marcha — é um sinal que entra no conjunto de observações, nunca um diagnóstico isolado.
Quando observar com mais atenção
Vale conversar com o pediatra quando o andar na ponta dos pés:
- Persiste de forma constante após os 3 anos de idade
- Vem acompanhado de dificuldade para flexionar o tornozelo ou alcançar o chão com o calcanhar mesmo ao tentar
- Está associado a outros sinais, como atraso de fala, pouco contato visual, movimentos repetitivos (estereotipias) ou seletividade sensorial importante
- É assimétrico (só de um lado) ou vem junto com alterações no equilíbrio e na marcha em geral
O que fazer
O primeiro passo é sempre o pediatra, que avalia o contexto geral da criança. Dependendo do que for observado, ele pode encaminhar para avaliação ortopédica (para checar o tendão de Aquiles), neurológica ou multiprofissional, caso outros sinais estejam presentes. Na maioria dos casos em que o padrão é isolado e a criança não tem outros sinais de alerta, a orientação costuma ser apenas observar a evolução. O estudo do Journal of Foot and Ankle Surgery mostrou ainda que, mesmo entre as crianças com TEA e marcha em ponta dos pés persistente, a indicação de cirurgia ortopédica não foi significativamente mais frequente do que nas crianças sem TEA após ajuste estatístico — reforçando que a conduta inicial costuma ser conservadora [1].
- Primeiros sinais de autismo antes dos 2 anos → /sinais-precoces-autismo-antes-2-anos/
Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico.
Referências bibliográficas
[1] Chapek M, Kessler J. The Prevalence of Persistent Toe Walking in Children With and Without Autism Spectrum Disorder and the Odds of Subsequent Surgery. Journal of Foot and Ankle Surgery. 2025;64(1):16-20.
[2] Costanza C, Gallai B, Sorrentino M, et al. The Prevalence and Clinical Significance of Toe Walking in Autism Spectrum Disorder: A Cross-Sectional Study in an Italian Pediatric Sample. Medicina. 2025;61(8):1346.
