A escola mandou um bilhete dizendo que o filho não para quieto. Ou a filha de 10 anos começou a ter dor de barriga todo domingo à noite e chorar para não ir à aula. Ou o pequeno de 3 anos ainda fala pouco e tem crises que ninguém consegue acalmar. A pergunta que vem em seguida é quase sempre a mesma: levo a quem? Psicólogo, psiquiatra infantil ou neuropediatra? A dúvida é legítima, porque as funções se sobrepõem, as filas são longas e começar pelo profissional errado pode significar meses de espera por uma consulta que vai terminar num novo encaminhamento.
Este artigo explica o que cada profissional faz, por qual queixa começar, quando o cuidado precisa ser em equipe e como chegar até eles pelo SUS e pelo plano de saúde.
Psiquiatra infantil ou neuropediatra: por que essa dúvida é tão comum
Problemas de saúde mental e de comportamento na infância não são raros. Uma metanálise publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry [1], com 41 estudos de 27 países, estimou que 13,4% das crianças e adolescentes têm algum transtorno mental. Os mais frequentes foram os transtornos de ansiedade (6,5%), os transtornos de comportamento disruptivo (5,7%), o TDAH (3,4%) e a depressão (2,6%). Uma revisão publicada na The Lancet [2] descreve esses problemas como uma das principais causas de incapacidade nessa faixa etária e aponta que as necessidades de saúde mental de crianças são negligenciadas, principalmente em países de renda média e baixa.
Os números brasileiros são parecidos. Um estudo com 1.251 crianças de 7 a 14 anos em Taubaté, publicado no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry [3], encontrou prevalência de 12,7%, e os autores descreveram como “enorme” a distância entre necessidade e oferta de atendimento. Um levantamento posterior em quatro regiões do país, publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria [4], encontrou 13,1% entre crianças e adolescentes de 6 a 16 anos.
Uma em cada oito crianças, portanto. E, para atendê-las, o Brasil tem poucos profissionais com formação específica, como mostra a seção seguinte.
O pediatra: a porta de entrada
Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025 [5], o país tinha em 2024 47.787 pediatras, 974 médicos com certificação em neurologia pediátrica e 827 em psiquiatria da infância e da adolescência. Para cada psiquiatra infantil, há quase 60 pediatras. Na prática, isso significa que o pediatra não é só a porta de entrada: é quem acompanha a maior parte dos casos, e quem decide quando e para quem encaminhar.
O pediatra pode avaliar o desenvolvimento, aplicar questionários de triagem, investigar causas clínicas (sono ruim, anemia, problemas de tireoide, perda auditiva, efeitos de medicamentos) e, em muitos casos, diagnosticar e tratar quadros como o TDAH sem complicações. Uma metanálise publicada na JAMA Pediatrics [6], com 31 estudos e mais de 13 mil crianças e adolescentes, mostrou que os modelos em que o pediatra trabalha integrado a profissionais de saúde mental produzem resultados melhores do que o atendimento usual, com efeito mais forte nos modelos de cuidado colaborativo. Em termos simples: a chance de uma criança ter um resultado melhor foi de 66% no cuidado integrado.
Por isso, na dúvida, comece pelo pediatra que já conhece seu filho. Leve as queixas por escrito, os relatórios da escola e, se houver, vídeos dos episódios que preocupam.
O que faz o psicólogo
O psicólogo não é médico e não prescreve medicamentos. Seu trabalho é a psicoterapia, a orientação aos pais e a avaliação psicológica, incluindo a avaliação neuropsicológica, que mede atenção, memória, linguagem, raciocínio e funções executivas e ajuda a esclarecer diagnósticos como TDAH, dificuldades de aprendizagem e autismo.
Para vários problemas comuns, a psicoterapia é o tratamento de primeira linha. A revisão da Cochrane sobre terapia cognitivo-comportamental para ansiedade em crianças e adolescentes [7], com 87 estudos e quase 6 mil participantes, mostrou remissão do transtorno de ansiedade principal em 49,4% dos tratados, contra 17,8% dos que estavam em lista de espera. É preciso tratar três crianças para que uma a mais saia do quadro. A qualidade da evidência foi classificada como moderada.
Bons motivos para começar pelo psicólogo:
- Medos, preocupações excessivas, ansiedade de separação, recusa escolar
- Tristeza, irritabilidade ou isolamento leves a moderados, sem risco
- Dificuldades de comportamento em casa, em que a orientação aos pais costuma ser parte central do tratamento
- Reações a situações difíceis: separação dos pais, luto, mudança, bullying
- Necessidade de avaliação neuropsicológica pedida pelo médico
O que faz o psiquiatra da infância e da adolescência
O psiquiatra infantil é o médico que diagnostica e trata os transtornos mentais da infância e da adolescência. Ele avalia o quadro como um todo, diferencia diagnósticos que se parecem, identifica condições associadas e indica o tratamento, que pode incluir psicoterapia, orientação familiar, intervenções na escola e, quando necessário, medicamentos.
Medicamento não é sinônimo de psiquiatra, nem psiquiatra é sinônimo de medicamento. Mas, quando o remédio faz parte do tratamento, a evidência importa. No TDAH, por exemplo, uma metanálise em rede publicada na The Lancet Psychiatry [8], com 133 ensaios clínicos duplo-cegos, mostrou que todos os medicamentos estudados foram superiores ao placebo para os sintomas centrais em crianças e adolescentes, com o metilfenidato como primeira escolha nessa faixa etária no tratamento de curto prazo. A decisão de usar, qual usar e por quanto tempo é sempre individual.
Situações em que o psiquiatra infantil costuma ser o profissional mais indicado:
- Ansiedade ou depressão graves, ou que não melhoraram com psicoterapia
- Transtorno obsessivo-compulsivo
- Transtornos alimentares, como anorexia e bulimia
- Mudanças bruscas de humor ou de comportamento, agitação intensa, falta de sono sem cansaço
- Comportamento de autolesão, falas sobre morrer ou não querer viver
- Percepções estranhas, como ouvir vozes ou desconfiança intensa e sem motivo
- TDAH com outras condições associadas, ou que não respondeu ao primeiro tratamento
Se o seu filho fala em se machucar, em morrer ou em “sumir”, não espere a consulta: procure atendimento no mesmo dia. O CVV atende 24 horas pelo telefone 188, e em situação de risco imediato ligue para o SAMU, 192.
O que faz o neuropediatra
O neuropediatra é o médico que cuida das doenças do sistema nervoso na infância: cérebro, medula, nervos e músculos. Ele examina a parte neurológica em detalhe, pede exames como eletroencefalograma e ressonância quando indicados e trata condições como:
- Convulsões e epilepsia, incluindo as crises de ausência, que parecem “desligamentos”
- Dores de cabeça frequentes ou com sinais de alarme
- Atraso motor, fraqueza, alterações de tônus, quedas frequentes, andar na ponta dos pés persistente
- Tiques e outros movimentos involuntários
- Perda de habilidades já adquiridas (regressão)
- Alterações do tamanho da cabeça, malformações, doenças genéticas e metabólicas com repercussão neurológica
Os transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo, TDAH e deficiência intelectual, ficam na fronteira: são avaliados e acompanhados tanto por neuropediatras quanto por psiquiatras infantis. O que costuma pesar na escolha é o restante do quadro. Se, além da suspeita de autismo, há convulsões, atraso motor ou regressão, o neuropediatra é a escolha natural. Se predominam ansiedade intensa, comportamento muito difícil ou sintomas de humor, o psiquiatra infantil tende a ser mais útil.
Por qual queixa começar
- Convulsão, perda de consciência, crise com movimentos: emergência no momento da crise; depois, pediatra e neuropediatra
- Dor de cabeça frequente: pediatra; neuropediatra se houver sinais de alarme ou se não melhorar
- Atraso de fala ou motor, suspeita de autismo em criança pequena: pediatra, que encaminha para neuropediatra ou psiquiatra infantil e já inicia fonoaudiologia ou terapia ocupacional, se indicadas
- Desatenção e agitação na escola: pediatra; neuropediatra ou psiquiatra infantil se o quadro for complexo; psicólogo para avaliação neuropsicológica quando pedida
- Medos, preocupações, tristeza leve a moderada: psicólogo, com avaliação médica se não houver melhora
- Tiques: pediatra ou neuropediatra; psiquiatra se houver TOC ou ansiedade importante junto
- Perda de habilidades: pediatra com prioridade, e neuropediatra
- Autolesão, falas sobre morte, perda de peso por recusa alimentar, ouvir vozes: psiquiatra infantil com urgência; em risco imediato, emergência ou SAMU 192
Quando o cuidado precisa ser em equipe
Muitas crianças vão precisar de mais de um profissional, e isso não é sinal de que algo deu errado. Uma criança autista com epilepsia pode precisar de neuropediatra, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional e psicólogo. Um adolescente com TDAH e ansiedade pode precisar de psiquiatra e psicoterapia ao mesmo tempo.
O que faz diferença, segundo a metanálise citada acima [6], é a integração: profissionais que conversam entre si, objetivos comuns e um responsável por coordenar o cuidado, papel que muitas vezes cabe ao pediatra. Peça que os profissionais troquem relatórios e, quando possível, conversem diretamente. Desconfie de condutas isoladas que ignoram o que os outros membros da equipe estão fazendo.
Como chegar até eles pelo SUS e pelo plano
No SUS, a entrada é pela Unidade Básica de Saúde, onde a equipe de saúde da família e o pediatra avaliam e encaminham. Os casos de sofrimento psíquico grave e persistente são atendidos nos Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi). Um estudo publicado nos Cadernos de Saúde Pública [9] mostrou que, em 2014, havia 208 CAPSi no país, distribuídos em 23 dos 27 estados, e concluiu que eles são insuficientes e mal distribuídos. A forma de acesso varia por município: em alguns, a família pode procurar o CAPSi diretamente; em outros, é preciso encaminhamento da UBS.
No plano de saúde, consultas com pediatra, neuropediatra e psiquiatra são cobertas, e desde 2022 (RN ANS 541/2022) não há limite de sessões de psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional quando há indicação.
O mais importante é não deixar a dúvida sobre “quem procurar” virar motivo para não procurar ninguém. Começar pelo pediatra, levando a queixa bem descrita, já encurta o caminho.
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Leia também:
- Quando levar ao neuropediatra: sinais que não devem esperar
- Consulta com neuropediatra: o que levar e o que esperar
- TDAH ou criança agitada? A diferença que poucos explicam
- Ansiedade infantil e o celular
- Epilepsia infantil: tipos de crise e o que todo pai precisa saber
Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra. Se você está em sofrimento emocional intenso, procure um profissional de saúde mental ou ligue para o CVV, 188.
Referências bibliográficas
[1] Polanczyk GV, Salum GA, Sugaya LS, et al. Annual research review: a meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 2015;56(3):345-365. doi: 10.1111/jcpp.12381.
[2] Kieling C, Baker-Henningham H, Belfer M, et al. Child and adolescent mental health worldwide: evidence for action. The Lancet. 2011;378(9801):1515-1525. doi: 10.1016/S0140-6736(11)60827-1.
[3] Fleitlich-Bilyk B, Goodman R. Prevalence of child and adolescent psychiatric disorders in southeast Brazil. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. 2004;43(6):727-734. doi: 10.1097/01.chi.0000120021.14101.ca.
[4] Paula CS, Coutinho ES, Mari JJ, et al. Prevalence of psychiatric disorders among children and adolescents from four Brazilian regions. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2015;37(2):178-179. doi: 10.1590/1516-4446-2014-1606.
[5] Scheffer M (coord.). Demografia Médica no Brasil 2025. Brasília: Ministério da Saúde; 2025. Disponível em: bvsms.saude.gov.br (publicação sem DOI).
[6] Asarnow JR, Rozenman M, Wiblin J, Zeltzer L. Integrated medical-behavioral care compared with usual primary care for child and adolescent behavioral health: a meta-analysis. JAMA Pediatrics. 2015;169(10):929-937. doi: 10.1001/jamapediatrics.2015.1141.
[7] James AC, Reardon T, Soler A, et al. Cognitive behavioural therapy for anxiety disorders in children and adolescents. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2020;11(11):CD013162. doi: 10.1002/14651858.CD013162.pub2.
[8] Cortese S, Adamo N, Del Giovane C, et al. Comparative efficacy and tolerability of medications for attention-deficit hyperactivity disorder in children, adolescents, and adults: a systematic review and network meta-analysis. The Lancet Psychiatry. 2018;5(9):727-738. doi: 10.1016/S2215-0366(18)30269-4.
[9] Garcia GYC, Santos DN, Machado DB. Centros de Atenção Psicossocial Infantojuvenil no Brasil: distribuição geográfica e perfil dos usuários. Cadernos de Saúde Pública. 2015;31(12):2649-2654. doi: 10.1590/0102-311X00053515.
