‘Vacina causa autismo’: a mentira que coloca crianças em risco real

Poucas perguntas chegam ao consultório com tanta carga emocional quanto esta: “vacina causa autismo?” A dúvida é compreensível. Os primeiros sinais de autismo costumam aparecer entre 12 e 24 meses, exatamente a faixa etária em que a criança recebe várias vacinas do calendário. A coincidência de tempo cria a ilusão de causa. Mas a ciência já respondeu essa pergunta, com milhões de crianças estudadas, e a resposta é clara: não.

Este artigo explica de onde veio a ideia, o que os maiores estudos do mundo encontraram, o que realmente causa autismo e por que essa crença específica coloca crianças em risco concreto.

Vacina causa autismo: de onde veio essa ideia

Em 1998, o médico britânico Andrew Wakefield publicou na revista The Lancet um artigo com apenas 12 crianças sugerindo ligação entre a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e autismo. O estudo não tinha grupo controle, não tinha método estatístico adequado e, como se descobriu depois, tinha dados manipulados.

Uma investigação jornalística e científica conduzida ao longo de anos revelou que Wakefield havia recebido dinheiro de advogados que processavam fabricantes de vacinas, que as crianças foram selecionadas de forma dirigida e que os prontuários foram alterados para sustentar a hipótese. Em 2010, a The Lancet retratou formalmente o artigo [1]. Em 2011, o BMJ publicou editorial concluindo que o trabalho não foi apenas ruim: foi fraudulento [2]. Wakefield perdeu o registro médico no Reino Unido.

O dano, porém, já estava feito. A ideia se espalhou, ganhou vida própria nas redes sociais e continua circulando quase três décadas depois, apesar de nenhum outro estudo ter conseguido reproduzir o achado.

O que os maiores estudos do mundo encontraram

Depois de 1998, a comunidade científica fez o que precisa ser feito diante de uma hipótese séria: testou. Testou muitas vezes, em muitos países, com populações inteiras.

Dinamarca, 657.461 crianças. O maior estudo individual sobre o tema, publicado em 2019 no Annals of Internal Medicine [3], acompanhou todas as crianças nascidas na Dinamarca entre 1999 e 2010. Crianças vacinadas com a tríplice viral não tiveram risco maior de autismo do que crianças não vacinadas. O estudo também analisou subgrupos considerados de maior risco (irmãos de crianças autistas, crianças com outros fatores de risco) e não encontrou aumento em nenhum deles. Também não houve agrupamento de diagnósticos nos meses seguintes à vacinação.

Metanálise com 1,2 milhão de crianças. Uma metanálise publicada na revista Vaccine [4] reuniu cinco estudos de coorte com 1.256.407 crianças e cinco estudos caso-controle com 9.920 crianças. Não houve associação entre vacinação e autismo, entre tríplice viral e autismo, nem entre timerosal (conservante à base de mercúrio, já retirado da maioria das vacinas infantis) e autismo.

Irmãos de crianças autistas. Um estudo publicado no JAMA [5], com mais de 95 mil crianças nos Estados Unidos, analisou especificamente irmãos mais novos de crianças com autismo, o grupo com maior risco genético conhecido. Mesmo nesse grupo, a vacina tríplice viral não aumentou o risco de autismo.

Esses estudos não são pequenos, não são financiados por fabricantes de vacinas e usaram registros nacionais de saúde que permitem acompanhar cada criança. Quando estudos desse porte, em países diferentes, chegam ao mesmo resultado, a questão científica está encerrada.

O que realmente causa autismo

O autismo é uma condição do neurodesenvolvimento com forte base genética. Um estudo publicado no JAMA Psychiatry [6], acompanhando mais de 2 milhões de crianças em cinco países (Dinamarca, Finlândia, Suécia, Israel e Austrália Ocidental), estimou a herdabilidade do autismo em aproximadamente 80%. Isso significa que a maior parte da variação no risco de autismo entre pessoas é explicada por fatores genéticos herdados. Fatores ambientais contribuem com a parcela restante, e entre os que têm evidência estão prematuridade extrema, idade parental avançada e algumas exposições durante a gestação. Vacinas não estão nessa lista.

Estudos de neuroimagem e neuropatologia também mostram que as diferenças cerebrais associadas ao autismo começam antes do nascimento, durante o desenvolvimento fetal, muito antes de qualquer vacina ser aplicada. O que acontece entre 12 e 24 meses não é o surgimento do autismo: é o momento em que os sinais se tornam visíveis, porque é quando a criança deveria começar a apontar, falar, compartilhar atenção e brincar de forma social.

Por que a coincidência de tempo engana

O raciocínio “meu filho tomou a vacina e semanas depois parou de falar” é intuitivo e doloroso. Mas uma parcela significativa das crianças com autismo passa por um período de regressão entre 15 e 24 meses, com ou sem vacina. Como praticamente todas as crianças são vacinadas nessa faixa, qualquer evento que aconteça nela vai coincidir com uma vacina.

É o mesmo raciocínio que faria alguém concluir que a primeira dentição causa autismo, ou que começar a andar causa autismo. A ordem temporal, sozinha, não estabelece causa. Os estudos de coorte existem justamente para separar coincidência de causalidade, comparando crianças vacinadas e não vacinadas ao longo do tempo. E quando isso é feito, a diferença de risco desaparece.

O risco real: as doenças que as vacinas evitam

A crença de que vacina causa autismo não é apenas um erro teórico. Ela tem consequências mensuráveis. No Brasil, a cobertura vacinal infantil caiu de forma acentuada entre 2016 e 2022. Um estudo publicado em 2024 nos Cadernos de Saúde Pública [7], a partir da percepção de profissionais de saúde da atenção primária, identificou a hesitação vacinal como fenômeno crescente no país, alimentado por desinformação nas redes sociais, incluindo o mito do autismo.

O resultado foi a volta de doenças que estavam controladas. O Brasil perdeu o certificado de eliminação do sarampo em 2019, após surtos com milhares de casos e mortes de crianças. Sarampo não é doença leve: causa pneumonia, encefalite, surdez e, em cerca de 1 a cada mil casos, morte. A panencefalite esclerosante subaguda, complicação tardia do sarampo, é fatal e sem tratamento.

Uma revisão publicada na Revista de Saúde Pública [8] sobre a importância da hesitação vacinal na queda das coberturas no Brasil apontou que a decisão de não vacinar raramente é isolada: ela se apoia em uma rede de crenças que inclui desconfiança de instituições, informações falsas e a percepção equivocada de que as doenças evitáveis por vacina são coisa do passado.

O que dizer a quem ainda tem dúvida

Se o seu filho tem autismo, a vacina não causou. Se o seu filho ainda não foi diagnosticado e você está adiando vacinas por medo, o risco que você está assumindo é real e o que está evitando não existe. Conversar com o pediatra sobre cada dúvida é o caminho. Adiar vacinas por conta de um estudo fraudulento de 1998 não é.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.

Referências bibliográficas

[1] The Editors of The Lancet. Retraction: Ileal-lymphoid-nodular hyperplasia, non-specific colitis, and pervasive developmental disorder in children. The Lancet. 2010;375(9713):445. doi: 10.1016/S0140-6736(10)60175-4.

[2] Godlee F, Smith J, Marcovitch H. Wakefield’s article linking MMR vaccine and autism was fraudulent. BMJ. 2011;342:c7452. doi: 10.1136/bmj.c7452.

[3] Hviid A, Hansen JV, Frisch M, Melbye M. Measles, mumps, rubella vaccination and autism: a nationwide cohort study. Annals of Internal Medicine. 2019;170(8):513-520. doi: 10.7326/M18-2101.

[4] Taylor LE, Swerdfeger AL, Eslick GD. Vaccines are not associated with autism: an evidence-based meta-analysis of case-control and cohort studies. Vaccine. 2014;32(29):3623-3629. doi: 10.1016/j.vaccine.2014.04.085.

[5] Jain A, Marshall J, Buikema A, Bancroft T, Kelly JP, Newschaffer CJ. Autism occurrence by MMR vaccine status among US children with older siblings with and without autism. JAMA. 2015;313(15):1534-1540. doi: 10.1001/jama.2015.3077.

[6] Bai D, Yip BHK, Windham GC, et al. Association of genetic and environmental factors with autism in a 5-country cohort. JAMA Psychiatry. 2019;76(10):1035-1043. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2019.1411.

[7] Hesitação vacinal infantil e COVID-19 no Brasil: ampliando a análise a partir da percepção de profissionais de saúde. Cadernos de Saúde Pública. 2024;40(8):e00068824. doi: 10.1590/0102-311XPT068824.

[8] Sato APS. Qual a importância da hesitação vacinal na queda das coberturas vacinais no Brasil? Revista de Saúde Pública. 2018;52:96. doi: 10.11606/S1518-8787.2018052001199.