Hoje, 10 de outubro, é o dia mundial da saúde mental. Em 2026, a Federação Mundial de Saúde Mental escolheu como tema “experiências vividas ouvidas: vozes reais, mudança real”. A proposta é colocar no centro das decisões quem vive o sofrimento psíquico. Num blog sobre infância, essa frase tem um sentido muito concreto: escutar crianças e adolescentes. Porque é na infância e na adolescência que boa parte dos transtornos mentais começa, e é também quando eles mais passam despercebidos, confundidos com “fase”, “birra”, “preguiça” ou “drama”.
Este especial reúne o que os grandes estudos mostram sobre a saúde mental de crianças e adolescentes no mundo e no Brasil: quantos são afetados, quando os problemas começam, por que tão poucos recebem cuidado, o que protege, quais sinais merecem atenção e onde buscar ajuda.
Dia mundial da saúde mental: por que falar de crianças e adolescentes
A maior metanálise sobre o tema, publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry [1] com 41 estudos de 27 países, estimou que 13,4% das crianças e adolescentes do mundo têm algum transtorno mental. Os mais frequentes foram:
- Transtornos de ansiedade: 6,5%
- Transtornos de comportamento disruptivo (como o transtorno opositivo desafiador): 5,7%
- TDAH: 3,4%
- Depressão: 2,6%
A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos vive com um transtorno mental, o que corresponde a 15% de toda a carga de doença nessa faixa etária, e que a maior parte desses casos segue sem reconhecimento e sem tratamento [2]. No relatório mundial de saúde mental de 2022, a OMS calculou que cerca de 8% das crianças de 5 a 9 anos e 14% dos adolescentes vivem com um transtorno mental [3].
Começa mais cedo do que se imagina
Uma metanálise publicada na Molecular Psychiatry [4], com 192 estudos e mais de 700 mil pessoas, mediu a idade em que os transtornos mentais começam. Cerca de um em cada três começa antes dos 14 anos, quase metade (48,4%) antes dos 18 e 62,5% antes dos 25. A idade de pico de início foi 14 anos e meio.
Nos transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo e TDAH, a proporção é ainda maior: 61,5% começam antes dos 14 anos. Nos transtornos de ansiedade, 38,1% começam antes dos 14 e 51,8% antes dos 18.
Talvez você já tenha lido que “metade dos transtornos mentais começa antes dos 14 anos”. Essa frase vem de um único estudo americano, citado pela OMS [3]. A metanálise mundial, mais ampla, mostra um número um pouco menor antes dos 14, mas confirma a mensagem principal: a saúde mental adulta se constrói, e muitas vezes se compromete, na infância e na adolescência.
Na prática, isso muda a forma de olhar para o sofrimento das crianças. A ansiedade que aparece aos 8 anos, a irritabilidade que se instala aos 12, a tristeza que não passa aos 15 não são apenas fases a esperar. São, muitas vezes, o começo de quadros que, quando reconhecidos e tratados cedo, têm evolução muito melhor do que quando chegam ao consultório anos depois, já acompanhados de prejuízo escolar, conflitos familiares e isolamento.
E no Brasil?
O primeiro estudo epidemiológico feito em quatro regiões do país, publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria [5], avaliou escolares do 2º ao 6º ano com entrevista diagnóstica padronizada e encontrou 13,1% com pelo menos um transtorno psiquiátrico, número semelhante às estimativas mundiais. A ansiedade foi o grupo mais comum (7,2%). A frequência variou bastante entre os municípios estudados, de 6,8% a 18,5%.
Entre adolescentes, o maior retrato vem do ERICA, estudo nacional publicado na Revista de Saúde Pública [6], que avaliou 74.589 estudantes de 12 a 17 anos em cidades com mais de 100 mil habitantes. A prevalência de transtornos mentais comuns, como sintomas de ansiedade e depressão, foi de 30%: 38,4% entre as meninas e 21,6% entre os meninos. Nas meninas, o número subia de 28,1% aos 12 anos para 44,1% aos 17. Vale um cuidado na leitura: o ERICA usou um questionário de rastreio de sintomas, não um diagnóstico clínico, por isso o número é maior e não deve ser comparado diretamente com os 13% dos estudos diagnósticos. Mesmo assim, é um sinal de alerta claro, especialmente para as meninas na adolescência.
A lacuna: quem precisa raramente chega ao cuidado
Os números de prevalência impressionam, mas o dado mais preocupante é outro. Na mesma pesquisa das quatro regiões brasileiras, publicada na PLoS One [7], só 19,8% das crianças e adolescentes com transtorno psiquiátrico tinham usado algum serviço de saúde mental no ano anterior. Ou seja: quatro em cada cinco não receberam cuidado. Usavam menos os serviços as meninas, as crianças com bom desempenho escolar, as famílias de menor renda e quem morava nas regiões mais carentes do país.
O dado sobre bom desempenho escolar chama atenção. Criança que vai bem na escola tende a ter o sofrimento ignorado, como se boas notas fossem prova de que está tudo bem. Ansiedade e depressão, principalmente em meninas, muitas vezes são silenciosas.
Uma revisão publicada na The Lancet [8] já apontava que as necessidades de saúde mental de crianças e adolescentes são negligenciadas no mundo todo, especialmente em países de renda média e baixa, como o Brasil. E a OMS registra que, em média, só 2% dos orçamentos de saúde dos países vão para a saúde mental [3].
Suicídio e autolesão: o que os números mostram
Este é um tema difícil, mas silenciar não protege ninguém. Segundo a OMS, o suicídio é a terceira causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo [2]. O UNICEF estima que quase 46 mil crianças e adolescentes de 10 a 19 anos morrem por suicídio a cada ano [9].
No Brasil, um estudo publicado em 2024 na The Lancet Regional Health – Americas [10] analisou os dados de 2011 a 2022 e encontrou aumento das taxas de suicídio em todo o país, com a maior alta proporcional entre jovens de 10 a 24 anos: 6,1% ao ano. As notificações de autolesão também cresceram muito no período, embora parte desse aumento reflita a melhora do sistema de notificação, que começou em 2011.
Por trás desses números há uma mensagem que precisa ser dita com clareza: suicídio pode ser prevenido, e a maioria dos jovens em sofrimento dá sinais. Reconhecer esses sinais e conversar sobre eles salva vidas.
Sinais que merecem atenção
Nenhum sinal isolado significa transtorno. O que pesa é a mudança em relação ao jeito habitual da criança, a duração (mais de duas semanas) e o prejuízo na vida dela.
Em crianças:
- Medos e preocupações excessivos, que impedem atividades comuns, como dormir sozinha ou ir à escola
- Irritabilidade constante ou crises de raiva muito frequentes
- Dor de barriga, dor de cabeça ou enjoo frequentes, sem causa clínica
- Mudanças no sono ou no apetite
- Perda de interesse em brincar, isolamento
- Regressão: voltar a fazer xixi na cama, falar como bebê
- Queda no desempenho escolar
Em adolescentes:
- Isolamento dos amigos e da família, mais do que o habitual da idade
- Tristeza, irritabilidade ou apatia persistentes
- Perda de interesse no que antes gostava
- Mudanças bruscas de sono, apetite ou peso
- Uso de álcool ou outras drogas
- Machucados sem explicação, roupas de manga comprida no calor
- Falas sobre não ter valor, ser um peso, querer sumir ou morrer
Falas sobre morrer ou sinais de autolesão pedem ajuda no mesmo dia. Não espere a próxima consulta.
O que protege: o papel da família
Uma metanálise publicada no Journal of Affective Disorders [11], com 181 estudos sobre adolescentes de 12 a 18 anos, identificou fatores ligados aos pais que se associam a mais risco de depressão e ansiedade, e que podem ser modificados. Invertendo a leitura, o que protege:
- Calor afetivo: demonstrar carinho, interesse e aceitação
- Menos conflito entre os pais, ou ao menos conflitos que não envolvam o filho
- Autonomia gradual, sem superproteção nem controle excessivo
- Supervisão: saber onde o filho está, com quem e o que faz, sem invadir
- Evitar críticas duras e humilhações, que aumentam o risco
E as telas? A relação existe, mas é menor do que se costuma dizer. Um estudo publicado na Nature Human Behaviour [12], com mais de 355 mil adolescentes, encontrou associação negativa entre uso de tecnologia digital e bem-estar, porém pequena: explicava no máximo 0,4% das diferenças de bem-estar entre os jovens. Isso não quer dizer que o celular não importe. Quer dizer que o que o adolescente faz na tela, quanto tempo de sono ele perde e o que deixa de fazer para ficar no celular contam mais do que o número de horas isoladamente.
Escutar de verdade
O tema deste ano fala em vozes ouvidas. Em casa, isso significa algumas atitudes simples, e difíceis:
- Perguntar e esperar a resposta, sem preencher o silêncio com conselhos
- Validar antes de resolver: “parece que você está muito cansado disso” funciona melhor do que “isso não é nada”
- Não minimizar com frases como “na sua idade eu não tinha problema” ou “isso é frescura”
- Perguntar diretamente, se houver motivo de preocupação, se ele já pensou em se machucar ou em morrer. Falar do assunto com calma e acolhimento abre a porta para a ajuda
- Cuidar de si mesmo: pais esgotados têm mais dificuldade de escutar. Pedir ajuda para você também é cuidar do seu filho
Se o seu filho disser que não está bem
Muitos pais travam no momento em que o filho finalmente fala. O medo de dizer a coisa errada faz a conversa terminar rápido demais. Alguns passos ajudam:
- Agradeça por ele ter contado. Falar de sofrimento custa muito, principalmente para adolescentes. “Obrigado por confiar em mim” vale mais do que qualquer conselho naquele momento
- Mantenha a calma, ou pelo menos tente parecer calmo. Se a reação for de pânico ou de bronca, a chance de ele voltar a falar diminui
- Pergunte mais antes de responder: desde quando se sente assim, o que piora, o que ajuda, se aconteceu alguma coisa na escola ou com os amigos
- Não prometa segredo absoluto. Se houver risco, você vai precisar pedir ajuda, e é melhor dizer isso com carinho desde o início: “eu vou te ajudar, e talvez a gente precise de mais alguém junto”
- Combine o próximo passo, de preferência com a participação dele: marcar o pediatra, procurar um psicólogo, conversar com a escola
- Volte ao assunto nos dias seguintes. Uma conversa só raramente resolve. O que protege é a sensação de que o canal continua aberto
Em crianças pequenas, que ainda não conseguem explicar o que sentem, o caminho costuma ser o brincar e o desenho. Mudanças de comportamento são, muitas vezes, a forma como elas contam que algo não vai bem. Vale lembrar também que crianças com autismo, TDAH ou epilepsia têm risco maior de ansiedade e depressão, e que nelas os sinais podem aparecer de forma diferente, como mais crises, mais irritabilidade ou mais isolamento. O especial do Setembro Amarelo, nos links ao final, trata desse tema em detalhe.
Onde buscar ajuda no Brasil
- Pediatra ou Unidade Básica de Saúde: porta de entrada para avaliação e encaminhamento
- CAPS infantojuvenil (CAPSi) ou CAPS: atendimento em saúde mental pelo SUS para casos graves e persistentes. A forma de acesso varia por município
- Psicólogo e psiquiatra da infância e da adolescência: pelo plano de saúde, a psicoterapia não tem limite de sessões desde 2022 (RN ANS 541/2022)
- Escola: orientadores e professores podem ajudar a perceber mudanças e a adaptar a rotina
- CVV, telefone 188: apoio emocional gratuito, 24 horas, também por chat em cvv.org.br
- SAMU, 192, ou pronto-socorro: em qualquer situação de risco imediato
Neste 10 de outubro, o convite é simples: olhar para as crianças e adolescentes da sua casa e perguntar, com tempo e sem pressa, como eles estão de verdade. E escutar a resposta.
Leia também:
- Psicólogo, psiquiatra infantil ou neuropediatra: quem procurar primeiro
- Setembro Amarelo: o que a ciência diz sobre crianças com autismo, TDAH e epilepsia
- Ansiedade infantil e o celular
- Tempo de tela para crianças: recomendações por idade
- Burnout do cuidador: quando quem cuida também precisa de cuidado
Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra. Se você está em sofrimento emocional intenso, procure um profissional de saúde mental ou ligue para o CVV, 188.
Referências bibliográficas
[1] Polanczyk GV, Salum GA, Sugaya LS, et al. Annual research review: a meta-analysis of the worldwide prevalence of mental disorders in children and adolescents. Journal of Child Psychology and Psychiatry. 2015;56(3):345-365. doi: 10.1111/jcpp.12381.
[2] World Health Organization. Mental health of adolescents (fact sheet). Genebra: OMS; 2025. Disponível em: who.int (documento sem DOI).
[3] World Health Organization. World mental health report: transforming mental health for all. Genebra: OMS; 2022. Disponível em: who.int (documento sem DOI).
[4] Solmi M, Radua J, Olivola M, et al. Age at onset of mental disorders worldwide: large-scale meta-analysis of 192 epidemiological studies. Molecular Psychiatry. 2022;27(1):281-295. doi: 10.1038/s41380-021-01161-7.
[5] Paula CS, Coutinho ES, Mari JJ, et al. Prevalence of psychiatric disorders among children and adolescents from four Brazilian regions. Revista Brasileira de Psiquiatria. 2015;37(2):178-179. doi: 10.1590/1516-4446-2014-1606.
[6] Lopes CS, Abreu GA, Santos DF, et al. ERICA: prevalência de transtornos mentais comuns em adolescentes brasileiros. Revista de Saúde Pública. 2016;50(Supl 1):14s. doi: 10.1590/S01518-8787.2016050006690.
[7] Paula CS, Bordin IA, Mari JJ, et al. The mental health care gap among children and adolescents: data from an epidemiological survey from four Brazilian regions. PLoS One. 2014;9(2):e88241. doi: 10.1371/journal.pone.0088241.
[8] Kieling C, Baker-Henningham H, Belfer M, et al. Child and adolescent mental health worldwide: evidence for action. The Lancet. 2011;378(9801):1515-1525. doi: 10.1016/S0140-6736(11)60827-1.
[9] UNICEF. The State of the World’s Children 2021. On my mind: promoting, protecting and caring for children’s mental health. Nova York: UNICEF; 2021. Disponível em: unicef.org (documento sem DOI).
[10] Oliveira Alves FJ, Fialho E, Paiva de Araújo JA, et al. The rising trends of self-harm in Brazil: an ecological analysis of notifications, hospitalisations, and mortality between 2011 and 2022. The Lancet Regional Health – Americas. 2024;31:100691. doi: 10.1016/j.lana.2024.100691.
[11] Yap MBH, Pilkington PD, Ryan SM, Jorm AF. Parental factors associated with depression and anxiety in young people: a systematic review and meta-analysis. Journal of Affective Disorders. 2014;156:8-23. doi: 10.1016/j.jad.2013.11.007.
[12] Orben A, Przybylski AK. The association between adolescent well-being and digital technology use. Nature Human Behaviour. 2019;3(2):173-182. doi: 10.1038/s41562-018-0506-1.
