A criança não diz “estou ansiosa”. Ela recusa a escola, grita no banho, morde a própria mão quando a rotina muda, pergunta trinta vezes a que horas o pai chega. E a família ouve que “é do autismo”. A relação entre ansiedade no autismo é uma das mais mal compreendidas da clínica: a ansiedade é uma das comorbidade mais frequente no TEA, é tratável, e ainda assim passa despercebida na maioria das crianças, justamente porque ela raramente se apresenta como nas outras crianças.
Este artigo explica quanto a ansiedade é comum no autismo, por que ela se manifesta de forma diferente, como reconhecê-la em uma criança que não consegue nomear o que sente, e o que a ciência mostra sobre tratamento.
Ansiedade autismo: o tamanho do problema
A maior metanálise sobre condições associadas ao autismo foi publicada na Lancet Psychiatry [1], reunindo 96 estudos e mais de 100 mil pessoas autistas. Os transtornos de ansiedade apareceram em 20% das pessoas com TEA, o segundo diagnóstico psiquiátrico mais frequente, atrás apenas do TDAH. Em estudos restritos a crianças e adolescentes, com instrumentos específicos, a proporção é ainda maior: uma metanálise publicada na Clinical Child and Family Psychology Review [2], com 31 estudos de jovens autistas com menos de 18 anos, estimou que cerca de 40% têm ao menos um transtorno de ansiedade clinicamente significativo. As mais comuns foram fobia específica (30%), transtorno obsessivo-compulsivo (17%) e ansiedade social (17%).
Para comparação, na população geral de crianças, a prevalência de transtornos de ansiedade gira em torno de 6% a 7%. Ou seja: a criança autista tem risco várias vezes maior, e esse risco não é “parte do autismo”. É uma segunda condição, sobreposta, que piora a primeira.
Por que a ansiedade é tão comum no autismo
Um modelo influente, publicado na Frontiers in Human Neuroscience [3] por pesquisadores do Reino Unido e dos Estados Unidos, propõe três caminhos que convergem para a ansiedade no TEA:
Processamento sensorial. Sons, luzes, texturas e cheiros que passam despercebidos para a maioria são, para muitas crianças autistas, estímulos intensos e imprevisíveis. Um ambiente que agride os sentidos mantém o sistema nervoso em alerta constante. Ansiedade, nesse contexto, é resposta esperada a um mundo que dói.
Intolerância à incerteza. Esse é o mecanismo central do modelo. Crianças autistas tendem a tolerar mal o que não podem prever: mudanças de rotina, situações novas, perguntas sem resposta clara. A incerteza é vivida como ameaça. Os comportamentos repetitivos, as perguntas insistentes e a rigidez com regras são, em boa parte, estratégias para reduzir a incerteza e, portanto, a ansiedade.
Alexitimia. Dificuldade de identificar e nomear as próprias emoções, presente em cerca de metade das pessoas autistas. A criança sente o corpo acelerar, o estômago apertar, a vontade de fugir, mas não consegue traduzir isso em “estou com medo”. Sem a palavra, a emoção sai pelo comportamento.
Somam-se a esses três fatores as experiências reais de rejeição, bullying e fracasso social que muitas crianças autistas acumulam, e que tornam a ansiedade social não uma distorção cognitiva, mas uma leitura razoável do que já aconteceu.
Por que a ansiedade passa despercebida
Um estudo publicado no Journal of Autism and Developmental Disorders [4], que avaliou 59 jovens autistas com entrevistas diagnósticas detalhadas, mostrou o problema com clareza. Apenas 17% apresentavam ansiedade no formato “tradicional”, como descrito nos manuais diagnósticos. Outros 15% apresentavam apenas formas atípicas, e 31% apresentavam as duas. Ou seja, quase metade das crianças com ansiedade clinicamente relevante tinha manifestações que um avaliador treinado nos critérios usuais não reconheceria.
As formas atípicas identificadas incluem:
- Medo de mudança e de novidade desproporcional, sem outro conteúdo temático
- Fobias incomuns: medo intenso de sons específicos (liquidificador, descarga, sirene), de banheiros públicos, de determinadas texturas, de personagens ou objetos aparentemente inofensivos
- Desconforto social sem medo de julgamento: a criança evita pessoas não por temer o que vão pensar, mas por sobrecarga sensorial e imprevisibilidade
- Preocupação obsessiva com interesses restritos: angústia real quando não consegue acessar o tema, o objeto ou a rotina de interesse
- Compulsões que não parecem aliviar sofrimento, mas que aumentam de intensidade em períodos de estresse
O outro grande motivo é o chamado “eclipse diagnóstico”: tudo que a criança faz é atribuído ao autismo. A recusa escolar é “do autismo”. A birra no supermercado é “do autismo”. O sono ruim é “do autismo”. Quando a explicação já está pronta, ninguém procura a segunda condição.
Como reconhecer a ansiedade numa criança que não verbaliza
Um estudo publicado na revista Autism [5], que entrevistou pais de crianças autistas sobre como eles percebem a ansiedade nos filhos, identificou que os sinais mais confiáveis são mudanças de comportamento em relação ao padrão habitual da criança, não a presença de um comportamento em si. O que os pais devem observar:
Sinais físicos: queixas de dor de barriga ou de cabeça sem causa médica, especialmente em horários previsíveis (manhã de escola, véspera de evento); tremor, suor, palidez, taquicardia; alterações de sono e apetite; regressão no controle de esfíncteres em criança que já tinha controle.
Aumento de comportamentos repetitivos: mais balanço, mais flapping, mais vocalizações, mais insistência em rotinas. Estereotipias que aumentam de intensidade são um dos indicadores mais consistentes de ansiedade no TEA.
Evitação: recusa a lugares, pessoas ou atividades que antes aceitava; recusa escolar persistente; necessidade crescente de ter o mesmo adulto por perto.
Perguntas repetitivas e busca de garantias: “que horas vamos embora?” perguntado dezenas de vezes não é falta de memória. É ansiedade procurando previsibilidade.
Explosões e agressividade: meltdowns mais frequentes, autolesão (bater a cabeça, morder-se), agressão a outros. No autismo, a ansiedade frequentemente sai como raiva, porque a raiva é mais fácil de expressar.
Retraimento: a criança que fica mais quieta, mais isolada, mais “dentro de si”. É o sinal mais fácil de perder, porque não incomoda ninguém.
A pergunta útil não é “meu filho é ansioso?”, mas “o que mudou, quando mudou e o que estava acontecendo na vida dele nessa época?”
O que a ciência mostra sobre tratamento
A boa notícia é que a ansiedade no autismo responde a tratamento, desde que ele seja adaptado. O ensaio clínico mais robusto na área foi publicado no JAMA Psychiatry [6]. Pesquisadores randomizaram 167 crianças autistas de 7 a 13 anos com ansiedade clinicamente significativa para três grupos: terapia cognitivo-comportamental padrão (Coping Cat), terapia cognitivo-comportamental adaptada ao autismo (BIACA) ou tratamento usual. Os dois formatos de TCC reduziram a ansiedade de forma significativa em comparação ao tratamento usual, e a versão adaptada ao autismo teve resultados superiores, com mais crianças respondendo ao tratamento.
O que a adaptação envolve, na prática:
- Apoios visuais, linguagem concreta e menos abstração
- Uso dos interesses restritos da criança como motivação e como exemplo
- Envolvimento intenso dos pais, que aprendem a aplicar as estratégias em casa
- Trabalho direto com a intolerância à incerteza: exposição gradual a pequenas mudanças planejadas
- Inclusão de habilidades sociais e de regulação sensorial, não só de pensamentos ansiosos
- Ritmo mais lento, sessões mais estruturadas, mais repetição
Para crianças com fala mínima, a TCC verbal não se aplica diretamente, mas os princípios sim: previsibilidade, antecipação visual de mudanças, exposição gradual, redução de sobrecarga sensorial e ensino de formas alternativas de pedir pausa ou ajuda. A terapia ocupacional com foco sensorial e a análise do comportamento aplicada, quando orientadas para a função do comportamento, atuam sobre as mesmas causas.
Sobre medicamentos: os inibidores seletivos de recaptação de serotonina (como fluoxetina e sertralina) são usados para ansiedade em crianças autistas, mas a evidência é mais fraca do que na população geral. Uma revisão da Cochrane [7] sobre esses medicamentos em autismo não encontrou benefício sobre os sintomas centrais do TEA e alertou para efeitos adversos, incluindo ativação comportamental e irritabilidade, mais frequentes do que em crianças não autistas. Isso não significa que nunca devam ser usados: significa que a indicação deve ser feita por médico com experiência, com dose inicial baixa, monitoramento próximo e sempre em conjunto com a intervenção comportamental, nunca no lugar dela.
O que os pais podem fazer agora
- Antecipe. Rotina visual, aviso prévio de mudanças, contagem regressiva antes de transições. Previsibilidade é o antídoto mais barato para a ansiedade no autismo
- Reduza a sobrecarga sensorial nos ambientes que a criança frequenta: fones abafadores, espaço de descanso, permissão para sair de situações barulhentas
- Nomeie a emoção por ela. “Seu corpo está agitado, acho que você está com medo de ir ao médico.” Nomear não induz, ensina
- Não elimine tudo que causa ansiedade. Evitação total alimenta a ansiedade. O objetivo é exposição gradual, com apoio, ao que é seguro mas assustador
- Registre. Um diário simples de quando os comportamentos aumentam, o que aconteceu antes e o que a criança fez ajuda a identificar padrões que não aparecem na consulta
- Peça avaliação específica de ansiedade ao médico que acompanha a criança e à equipe terapêutica. Existem instrumentos adaptados para o TEA, e a pergunta “isso pode ser ansiedade e não autismo?” muda o rumo da avaliação
Tratar a ansiedade não muda o autismo. Mas muda quanto a criança consegue aprender, participar e aproveitar as terapias, a escola e a vida. Em muitos casos, o “autismo que piorou” era uma ansiedade que ninguém tinha visto.
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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Lai MC, Kassee C, Besney R, et al. Prevalence of co-occurring mental health diagnoses in the autism population: a systematic review and meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2019;6(10):819-829. doi: 10.1016/S2215-0366(19)30289-5.
[2] van Steensel FJA, Bögels SM, Perrin S. Anxiety disorders in children and adolescents with autistic spectrum disorders: a meta-analysis. Clinical Child and Family Psychology Review. 2011;14(3):302-317. doi: 10.1007/s10567-011-0097-0.
[3] South M, Rodgers J. Sensory, emotional and cognitive contributions to anxiety in autism spectrum disorders. Frontiers in Human Neuroscience. 2017;11:20. doi: 10.3389/fnhum.2017.00020.
[4] Kerns CM, Kendall PC, Berry L, et al. Traditional and atypical presentations of anxiety in youth with autism spectrum disorder. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2014;44(11):2851-2861. doi: 10.1007/s10803-014-2141-7.
[5] Adams D, Young K, Simpson K, Keen D. Parent descriptions of the presentation and management of anxiousness in children on the autism spectrum. Autism. 2019;23(4):980-992. doi: 10.1177/1362361318794031.
[6] Wood JJ, Kendall PC, Wood KS, et al. Cognitive behavioral treatments for anxiety in children with autism spectrum disorder: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2020;77(5):474-483. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2019.4160.
[7] Williams K, Brignell A, Randall M, Silove N, Hazell P. Selective serotonin reuptake inhibitors (SSRIs) for autism spectrum disorders (ASD). Cochrane Database of Systematic Reviews. 2013;(8):CD004677. doi: 10.1002/14651858.CD004677.pub3.
