Comunicação alternativa autismo: quando a fala oral não vem primeiro

“Se eu der as figurinhas para ele, ele vai se acomodar e nunca vai falar.” Essa é a frase que mais atrasa o início da comunicação alternativa autismo nas famílias brasileiras. O medo é compreensível: os pais querem ouvir a voz do filho, e qualquer coisa que pareça um “substituto” da fala soa como desistência. Mas a ciência diz o oposto. A comunicação alternativa e aumentativa (CAA) não impede a fala. Em muitos casos, ela a acelera. E, enquanto a fala não vem, ela dá à criança algo que não pode esperar: uma forma de dizer o que quer, o que sente e o que não quer.

Este artigo explica o que é CAA, quais são os sistemas mais usados, o que os estudos mostram sobre o efeito na fala, e como começar.

Comunicação alternativa autismo: o que é CAA

Comunicação Alternativa e Aumentativa é o conjunto de recursos e estratégias que complementam (aumentativa) ou substituem (alternativa) a fala oral quando ela está ausente, limitada ou insuficiente para as necessidades da pessoa. Não é um método único: é uma área da fonoaudiologia com diversas ferramentas, que vão do mais simples ao mais tecnológico.

Sistemas de baixa tecnologia:

  • PECS (Picture Exchange Communication System): a criança aprende a entregar uma figura ao adulto para pedir algo. Evolui em seis fases, da troca de uma única figura até frases com figuras e comentários espontâneos
  • Pranchas de comunicação: conjuntos de símbolos organizados por categoria (comida, brincadeira, sentimentos, pessoas) que a criança aponta
  • Gestos e sinais: sinais manuais adaptados, muitas vezes derivados da Libras, para palavras de alta frequência

Sistemas de alta tecnologia:

  • Dispositivos geradores de fala (vocalizadores): tablets ou aparelhos dedicados com aplicativos em que a criança toca em símbolos e o dispositivo “fala” por ela. Exemplos de aplicativos amplamente usados no Brasil incluem os baseados em símbolos pictográficos com voz sintetizada em português

Todos esses sistemas têm em comum um princípio: a comunicação é um direito, e a criança precisa de um meio de exercê-lo agora, não quando a fala eventualmente chegar.

O mito central: “CAA atrapalha a fala”

Essa preocupação foi levada a sério pela ciência e investigada repetidamente. A resposta é consistente em mais de duas décadas de estudos.

A revisão de referência sobre o tema foi publicada no Journal of Speech, Language, and Hearing Research [1]. Os pesquisadores analisaram todos os estudos disponíveis sobre o efeito da CAA na produção de fala em pessoas com deficiências do desenvolvimento. Em nenhum caso a fala diminuiu após a introdução da CAA. Na maioria dos participantes, a fala aumentou. Em alguns, permaneceu estável.

Uma revisão sistemática publicada no American Journal of Speech-Language Pathology [2], focada especificamente em crianças com autismo, chegou à mesma conclusão: a CAA não inibe a produção de fala e pode favorecê-la. Os autores alertaram, porém, que os ganhos de fala são modestos e variáveis, e que a expectativa realista deve ser “comunicação funcional agora, fala possivelmente depois”, e não “fala garantida”.

Uma revisão mais recente, publicada em 2021 no Journal of Autism and Developmental Disorders [3], atualizou a análise com estudos das duas décadas anteriores e reafirmou o achado: em nenhum estudo incluído houve redução da fala associada ao uso de CAA em pessoas autistas.

Por que isso acontece? Existem algumas explicações prováveis. A CAA reduz a frustração e os comportamentos desafiadores ligados à impossibilidade de se comunicar, liberando recursos para o aprendizado. Ela torna a linguagem visível e concreta, o que ajuda crianças com processamento auditivo mais lento. E, em sistemas com voz, a criança ouve a palavra correta associada ao símbolo toda vez que o usa, o que funciona como modelo de fala repetido centenas de vezes por dia.

O que a CAA faz de melhor: comunicação funcional

Uma metanálise publicada na Research in Developmental Disabilities [4], reunindo estudos sobre o PECS em pessoas com TEA, encontrou efeitos grandes sobre os desfechos-alvo (comunicação funcional: pedir, escolher, recusar) e efeitos menores sobre desfechos secundários como fala, comportamento e habilidades sociais. Outra metanálise, publicada no American Journal of Speech-Language Pathology [5], confirmou o padrão: o PECS é eficaz para o que se propõe, que é dar à criança um meio de comunicar necessidades de forma independente. O ganho de fala é possível, mas não é o objetivo principal nem a medida de sucesso.

Isso importa para a expectativa da família. Uma criança que, depois de três meses de PECS, consegue pedir água, escolher entre dois brinquedos e sinalizar que quer parar uma atividade obteve um resultado enorme, mesmo que ainda não fale. Antes, ela gritava, puxava a mão do adulto ou se jogava no chão para as mesmas mensagens.

CAA combinada com intervenção naturalística: o melhor resultado

O dado mais promissor vem da combinação. Uma metanálise publicada em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders [6] avaliou o efeito de intervenções naturalísticas do desenvolvimento (NDBIs, como ESDM, PRT e JASPER) sobre a linguagem de crianças autistas com fala mínima, comparando estudos em que a CAA foi integrada à intervenção com estudos em que não foi. As intervenções naturalísticas tiveram efeito forte sobre a linguagem, e o efeito foi significativamente maior quando a CAA estava integrada.

Ou seja: não é “CAA ou terapia de fala”. É CAA dentro da terapia, usada nos momentos naturais de brincadeira e rotina, com o adulto modelando o uso do sistema enquanto fala. Essa abordagem, chamada de modelagem assistida (aided language modeling), é hoje considerada a melhor prática.

A experiência brasileira

Um estudo publicado na CoDAS [7], revista oficial da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia, acompanhou crianças com TEA em intervenção fonoaudiológica com CAA em clínica-escola no Brasil, com análise de atos comunicativos antes e depois. Após a intervenção, as crianças apresentaram aumento no número de atos comunicativos, ampliação das funções comunicativas usadas (não só pedidos, mas também comentários e protestos) e maior iniciativa de comunicação. Os pais relataram redução de comportamentos disruptivos em casa.

O estudo também destacou um ponto frequentemente negligenciado: a CAA precisa sair da sala de terapia. Se o sistema só existe nas sessões, a criança aprende que ele só funciona ali. Pais, professores e cuidadores precisam ser treinados para usá-lo em casa, na escola e na rua.

Quando começar

Não existe idade mínima nem “pré-requisito” para iniciar CAA. A crença de que a criança precisa primeiro demonstrar intenção comunicativa, contato visual ou compreensão de figuras antes de receber um sistema foi abandonada pela literatura há anos. A CAA é justamente uma das formas de desenvolver essas habilidades.

Indicações claras para iniciar avaliação de CAA:

  • Criança de 2 anos ou mais sem palavras funcionais
  • Criança com poucas palavras que não consegue usá-las para pedir, recusar ou comentar de forma consistente
  • Criança que fala, mas cuja fala é ininteligível para pessoas fora da família
  • Criança com ecolalia extensa sem comunicação funcional
  • Criança com comportamentos desafiadores frequentes associados a tentativas frustradas de comunicação
  • Qualquer criança em que a fala não está acompanhando as necessidades comunicativas, independentemente da idade

Como começar

A avaliação e a escolha do sistema são feitas por fonoaudiólogo com formação em CAA, idealmente em conjunto com terapeuta ocupacional (para questões motoras e de acesso) e com a equipe de intervenção. Alguns pontos práticos:

  • Comece simples. Duas ou três figuras de coisas altamente motivadoras (o brinquedo preferido, o alimento preferido) são suficientes para as primeiras trocas
  • Modele o tempo todo. Use o sistema você mesmo, apontando os símbolos enquanto fala. A criança aprende vendo o uso, não apenas sendo instruída
  • Nunca retire a CAA como punição nem a condicione ao “bom comportamento”. É a voz da criança
  • Não force a fala oral como condição para atender o pedido feito por CAA. “Fala ‘água’ primeiro” ensina a criança que a CAA não funciona
  • Leve para todos os ambientes. Prancha ou tablet na mochila, na escola, na casa dos avós
  • Revise com frequência. Vocabulário cresce, interesses mudam, o sistema precisa acompanhar

Se o plano de saúde negar fonoaudiologia com CAA, a RN ANS 539/2022 garante cobertura ilimitada de terapias para TEA, incluindo fonoaudiologia, sem restrição de método.

A fala pode vir ou não. O que a CAA garante é que, em qualquer dos dois cenários, a criança não passa os anos mais importantes do desenvolvimento sem poder dizer o que precisa.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.

Referências bibliográficas

[1] Millar DC, Light JC, Schlosser RW. The impact of augmentative and alternative communication intervention on the speech production of individuals with developmental disabilities: a research review. Journal of Speech, Language, and Hearing Research. 2006;49(2):248-264. doi: 10.1044/1092-4388(2006/021).

[2] Schlosser RW, Wendt O. Effects of augmentative and alternative communication intervention on speech production in children with autism: a systematic review. American Journal of Speech-Language Pathology. 2008;17(3):212-230. doi: 10.1044/1058-0360(2008/021).

[3] Augmentative and alternative communication and speech production for individuals with ASD: a systematic review. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2021. doi: 10.1007/s10803-021-04868-2.

[4] Ganz JB, Davis JL, Lund EM, Goodwyn FD, Simpson RL. Meta-analysis of PECS with individuals with ASD: investigation of targeted versus non-targeted outcomes, participant characteristics, and implementation phase. Research in Developmental Disabilities. 2012;33(2):406-418. doi: 10.1016/j.ridd.2011.09.023.

[5] Flippin M, Reszka S, Watson LR. Effectiveness of the Picture Exchange Communication System (PECS) on communication and speech for children with autism spectrum disorders: a meta-analysis. American Journal of Speech-Language Pathology. 2010;19(2):178-195. doi: 10.1044/1058-0360(2010/09-0022).

[6] Pope L, Light J, Laubscher E. The effect of naturalistic developmental behavioral interventions and aided AAC on the language development of children on the autism spectrum with minimal speech: a systematic review and meta-analysis. Journal of Autism and Developmental Disorders. 2025;55(9):3078-3099. doi: 10.1007/s10803-024-06382-7.

[7] Comunicação alternativa e aumentativa no transtorno do espectro do autismo: impactos na comunicação. CoDAS. 2020;32(6):e20190167. doi: 10.1590/2317-1782/20202019167.