Meninas com TDAH: por que o diagnóstico chega tão tarde

O atraso no diagnóstico de meninas com TDAH segue um padrão reconhecível: a menina que era “dispersa mas esforçada”, que cresceu se achando menos inteligente que os outros, que foi tratada por ansiedade durante anos, e que só recebeu o diagnóstico correto na adolescência tardia, na faculdade ou na vida adulta.

Esse padrão tem explicação. E tem custo.

O atraso é documentado e preocupante, e começa na forma como o transtorno se apresenta de forma diferente entre os sexos.

Meninas TDAH: como o quadro se apresenta diferente

A imagem do TDAH na cultura popular é masculina: o menino que não para na cadeira, que grita na sala, que é expulso da escola. Esse estereótipo não é totalmente errado, mas representa apenas parte do espectro.

Uma revisão sistemática publicada em 2025 na Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry [1], analisando estudos com crianças e adolescentes de 6 a 18 anos, encontrou diferenças consistentes entre meninos e meninas com TDAH: meninas têm mais comportamentos internalizantes — ansiedade, humor rebaixado, retraimento social — e menos comportamentos externalizantes como hiperatividade e impulsividade. Essas diferenças afetam a autoestima e a trajetória acadêmica de maneiras distintas.

Enquanto o menino com TDAH frequentemente gera algum incômodo no ambiente (e esse incômodo mobiliza adultos a buscar ajuda), a menina com TDAH frequentemente não incomoda ninguém. Ela é “a quietinha que poderia se esforçar mais”. Ela não aparece nas estatísticas de encaminhamento porque o professor não se sentiu pressionado a encaminhá-la.

A menina que aprende a disfarçar

Há um segundo mecanismo: meninas com TDAH frequentemente desenvolvem estratégias de compensação muito cedo. Elas copiam o comportamento das colegas, aprendem a “parecer” organizadas mesmo quando não estão, usam inteligência e esforço extra para manter desempenho suficiente.

Esse disfarce tem um nome: mascaramento. E tem preço. O esforço contínuo de simular um funcionamento que não é natural é mentalmente exaustivo — e contribui para ansiedade, baixa autoestima e esgotamento.

O que acontece quando o diagnóstico demora

Um estudo publicado em 2025 na Scientific Reports [2], que investigou as experiências vividas de 28 mulheres com diagnóstico tardio de TDAH, revelou um padrão que vai muito além de inconvenientes acadêmicos.

As participantes descreveram anos de críticas de colegas, professores e profissionais de saúde. Internalizaram a narrativa de que eram preguiçosas, descuidadas ou “menos capazes”. O estudo descreve níveis alarmantemente baixos de autoestima — associados a culpa, vergonha e autopercepção negativa construídos ao longo de anos sem diagnóstico.

Quando o diagnóstico finalmente chegou, as participantes descreveram-no como revelador — “minha vida finalmente fez sentido” — com melhora real de autoestima e bem-estar. Mas também descreveram luto: pela vida que poderiam ter tido com diagnóstico mais cedo.

Por que o sistema falha

Critérios diagnósticos baseados em estudos predominantemente masculinos. Os critérios históricos do TDAH foram desenvolvidos em amostras com muito mais meninos. Os sintomas típicos listados — hiperatividade, impulsividade visível — correspondem melhor à apresentação masculina.

Profissionais que não reconhecem o perfil feminino. Meninas com TDAH frequentemente chegam ao consultório rotuladas como “ansiosas”. A ansiedade pode existir — mas como consequência de anos de TDAH não reconhecido, não como diagnóstico primário.

Famílias que não suspeitam. O senso comum ainda equipara TDAH com hiperatividade. Uma menina que senta quieta na sala de aula raramente gera preocupação suficiente para consulta.

O que muda com o diagnóstico

O diagnóstico não é um rótulo — é uma explicação. Para muitas meninas e mulheres, entender que o TDAH está na origem das dificuldades é o começo de uma narrativa diferente: não sou preguiçosa, não sou menos inteligente. Meu cérebro funciona diferente — e existem formas de trabalhar com isso.

Se você tem uma filha que é “dispersa mas esforçada”, descrita pelos professores como “poderia se sair melhor se prestasse mais atenção”, que parece ansiosa sem motivo claro — vale conversar com o pediatra sobre TDAH.

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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.

Referências bibliográficas

[1] Dimitri D, Delia G, Cavallo F, Varini M, Fioretto F. Sex differences in children and adolescents with attention-deficit/hyperactivity disorder: a literature review. Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry. 2025;4:1582502. doi: 10.3389/frcha.2025.1582502.

[2] Holden E, Kobayashi-Wood H. Adverse experiences of women with undiagnosed ADHD and the invaluable role of diagnosis. Scientific Reports. 2025;15(1):20945. doi: 10.1038/s41598-025-04782-y.