O diagnóstico de altas habilidades e superdotação em crianças é mais raro do que deveria, em parte porque o perfil real é muito diferente do estereótipo.
Existe uma ideia muito difundida sobre a criança superdotada: ela tira as melhores notas, adora estudar, responde tudo antes dos outros e é querida pelos professores. É um estereótipo e, como a maioria dos estereótipos, atrapalha mais do que ajuda.
Na prática, crianças com altas habilidades ou superdotação (AH/SD) muitas vezes passam despercebidas, ou são identificadas como problemáticas. A que se entedia na aula e começa a perturbar. A que vai bem em algumas matérias e mal em outras. A que questiona tudo, discorda do professor, tem dificuldade de aceitar regras que “não fazem sentido”. A que está sempre na frente cognitivamente, mas perdida socialmente.
Esse é o perfil real das AH/SD. E ele raramente parece com o estereótipo da capa.
Altas habilidades e superdotação em crianças: o que a ciência identifica
Uma revisão sistemática publicada em 2024 na Frontiers in Psychology [1], que analisou 104 estudos envolvendo 77.705 crianças e adolescentes de 5 a 18 anos em mais de 25 países, traçou um panorama detalhado das características cognitivas, fisiológicas e psicológicas de crianças superdotadas.
Em termos cognitivos, essas crianças superam consistentemente seus pares em memória de trabalho verbal, controle inibitório, resolução de problemas geométricos e alternância entre tarefas. Durante tarefas cognitivas desafiadoras, apresentam atividade cerebral mais intensa e acelerada, o que sugere processamento mais eficiente e sofisticado da informação.
Em termos psicológicos, têm motivação intrínseca elevada, maior autoeficácia, abertura à experiência, autonomia e capacidade de solução de problemas. Geralmente têm notas mais altas, mas esse aspecto é altamente dependente do quanto o ambiente escolar consegue manter o engajamento.
A revisão também aponta uma tendência crescente a usar instrumentos de avaliação culturalmente mais sensíveis, reconhecendo que os perfis de AH/SD são heterogêneos e influenciados por fatores culturais, socioeconômicos e de contexto.
Por que tantos casos são perdidos
Se as crianças com AH/SD têm essas características, por que são tão frequentemente não identificadas, ou identificadas tarde demais? A pesquisa aponta pelo menos três mecanismos:
Mitos persistentes. Um estudo publicado em 2026 na BMC Psychology [2], que validou uma escala de mitos sobre superdotação, confirmou que crenças equivocadas sobre o que é, e como se parece, uma criança superdotada persistem amplamente entre educadores e famílias. Esses mitos filtram o olhar: se o professor acha que superdotado é sempre o melhor da turma e o mais comportado, a criança que se entedia e questiona nunca vai passar pelo crivo.
Dupla excepcionalidade (2e). Uma parte significativa de crianças com AH/SD tem também TDAH, dislexia, TEA ou outras condições do neurodesenvolvimento. Nesses casos, as dificuldades associadas à segunda condição podem mascarar as capacidades superiores, e vice-versa.
Subdesempenho deliberado. Especialmente em meninas e em contextos onde “ser diferente” tem custo social alto, crianças com AH/SD aprendem a esconder suas capacidades para se encaixar. Tiram notas medianas de propósito. Ficam quietas.
Como a AH/SD aparece na prática
Alguns sinais comuns, em casa e na escola:
- Vocabulário avançado para a idade, especialmente desde cedo
- Curiosidade intensa e persistente, especialmente em áreas de interesse específico
- Aprendizado rápido de coisas novas, mas desinteresse em repetir o que já dominou
- Alta sensibilidade emocional, perfeccionismo, senso de justiça exacerbado
- Questiona regras e autoridades quando “a regra não faz sentido”
- Prefere a companhia de crianças mais velhas ou adultos
- Pode ter dificuldade com pares da mesma idade (por diferenças de interesses e maturidade cognitiva)
- Intensidade emocional, o que alguns chamam de sobreexcitabilidade
É importante ressaltar que não há um perfil único. AH/SD é heterogênea, uma criança pode apresentar alguns desses traços e não outros.
O que a escola pode (e deve) fazer
A legislação brasileira (Lei 9.394/96, LDB) garante atendimento educacional especializado para alunos com AH/SD. Na prática, isso pode incluir enriquecimento curricular, aceleração escolar ou salas de recursos com atividades de aprofundamento.
Na sala de aula, estratégias como projetos com maior autonomia, desafios além do currículo padrão e espaço para questionar e aprofundar fazem diferença. O oposto, um ambiente rígido que exige que a criança repita o que já sabe, tende a resultar em tédio, desengajamento e, às vezes, comportamentos que levam ao encaminhamento por “problema de comportamento”.
Quando buscar avaliação
A avaliação de AH/SD é feita por psicólogo, com uso de testes padronizados de inteligência e criatividade, além de escalas comportamentais. O pediatra pode orientar o encaminhamento quando há suspeita.
Vale buscar avaliação quando: a criança aprende muito mais rápido do que os colegas; demonstra nível de conhecimento ou vocabulário claramente acima da faixa etária; tem dificuldades de adaptação escolar que não se explicam por problemas de comportamento; ou quando a família e/ou professores notam uma distância significativa entre o potencial percebido e o desempenho real.
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Aviso: Dr. Jayme Alves de Souza Neto é médico (CRM-RJ 52-129178-5), com pós-graduação em Neurologia Pediátrica e em Transtornos do Neurodesenvolvimento, e certificação internacional em autismo pela IBCCES. NÃO ESPECIALISTA — sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em neuropediatria. Este conteúdo é informativo e educativo, não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Diante de qualquer preocupação com o comportamento ou desenvolvimento do seu filho, procure o pediatra.
Referências bibliográficas
[1] Kuznetsova O, Smith C, Epping E, et al. Giftedness identification and cognitive, physiological and psychological characteristics of gifted children: a systematic review. Frontiers in Psychology. 2024;15:1411981. doi: 10.3389/fpsyg.2024.1411981.
[2] Güçyeter Ş, Atılgan H. Development and validation of the Giftedness Myth Scale: a comprehensive assessment tool. BMC Psychology. 2026;14:461. doi: 10.1186/s40359-026-04060-0.
